Oficina com a Companhia do Latão no Rio de Janeiro reforça diálogos entre teatro crítico e Teatro do Oprimido
30.11.2025
No último final de semana de novembro, recebemos Helena Albergaria e Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão, para a realização de uma oficina voltada à prática teatral, à reflexão crítica e à criação coletiva. A atividade reuniu participantes interessados em aprofundar experiências de um teatro politizado, comprometido com a leitura crítica da realidade e com o trabalho coletivo como prática de transformação.
Durante os dois dias de oficina, Helena e Sérgio compartilharam princípios e métodos desenvolvidos ao longo da trajetória da Companhia do Latão, tomando como referência os textos de Bertolt Brecht, e dialogando diretamente com fundamentos do teatro dialético. A proposta esteve ancorada na experimentação prática e no debate, entendendo a politização não como transmissão de discursos, mas como exercício ativo de pensamento, escuta e ação comum.



“A gente esteve aqui dando uma oficina, usando o texto A Exceção e a Regra do Brecht e tentando compartilhar, muito sinceramente, como a gente trabalha no Latão: amando a incerteza, respeitando os pontos de vista diferentes das pessoas sobre o debate e tentando ter alegria e prazer no trabalho”, destacou Helena Albergaria.
Para os artistas, o encontro no Rio de Janeiro se insere em uma trajetória de afinidades construídas no campo de um teatro engajado, mobilizador e atento às contradições do presente.
Teatro do Oprimido como prática viva e instrumento de resistência
Ao longo do encontro, a relação com o Teatro do Oprimido e com o legado de Augusto Boal esteve presente de forma transversal, tanto nas reflexões metodológicas quanto nos relatos pessoais dos artistas.
Helena Albergaria compartilhou sua trajetória de aproximação com o Teatro do Oprimido desde a adolescência, passando pela formação teatral e pela militância artística, ressaltando o papel central dessas práticas nos territórios de resistência cultural do país.

“Em todos os pontos de resistência cultural que a gente visitava pelo Brasil, o Teatro do Oprimido estava. Estava Brecht, estava Stanislavski. São instrumentos fundamentais para lidar com a complexidade da nossa vida num país tão violento e tão injusto”, afirmou.
Para ela, o Teatro do Oprimido segue sendo uma ferramenta potente de enfrentamento às múltiplas formas de violência e desigualdade no Brasil.
“Parabenizar o Teatro do Oprimido pelo trabalho no Brasil todo, porque são instrumentos de resistência. Isso é muito importante mesmo. Em São Paulo, eu acho que o teatro do oprimido e os Racionais são uma força muito importante de resistência e saudar esses grandes autores, esses grandes pensadores.”, reforçou Helena.
Sérgio de Carvalho também destacou a importância da obra de Augusto Boal em sua formação e no desenvolvimento de um teatro comprometido com a transformação social. Ao revisitar o livro Teatro do Oprimido, ele reconhece a dimensão histórica e, ao mesmo tempo, profundamente atual da proposta de Boal.
“O livro Teatro do Oprimido me parece uma obra fundamental da história das artes cênicas no Brasil e no mundo. É uma das últimas grandes teorias do século XX. E não só uma teoria, mas uma prática, uma grande prática teorizante”, afirmou.



Para Sérgio, a centralidade do Teatro do Oprimido está justamente na democratização dos meios de produção teatral, colocando o teatro a serviço da ação política coletiva.
“É a transferência dos meios de produção para qualquer pessoa usar o teatro como uma ferramenta de politização e de transformação.”, destacou Sérgio.

A oficina com a Companhia do Latão reafirma o Projeto Poéticas Populares como espaço de encontro entre diferentes tradições do teatro crítico brasileiro, fortalecendo vínculos históricos e contemporâneos com o legado de Augusto Boal. Mais do que uma atividade pontual, o encontro se inscreve em um campo comum de práticas que entendem o teatro como instrumento de leitura do mundo, ação coletiva e transformação social.
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O projeto “Poéticas Populares” conta com patrocínio da Funarte, através da emenda 972588
