Entre a terra e a memória: intercâmbio da ETP fortalece laços com a luta pela reforma agrária em visita ao Assentamento Roseli Nunes
14.07.2026
Conhecer uma luta é também caminhar por ela. Ouvir suas histórias, compartilhar seus alimentos, compreender os desafios que atravessam quem a constrói todos os dias. Foi essa a experiência vivida pelos estudantes do Núcleo de São Gonçalo da Escola de Teatro Popular (ETP) e pelos participantes do intercâmbio com a Montclair State University durante a visita ao Assentamento Roseli Nunes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Piraí, no interior do Rio de Janeiro.

Mais do que uma atividade de intercâmbio, a visita foi um encontro entre diferentes territórios de resistência. Ao longo do dia, estudantes brasileiros e estadunidenses conheceram a história da ocupação da antiga fazenda improdutiva, a organização coletiva das famílias assentadas e a produção de alimentos que nasce do trabalho cooperado e da defesa da reforma agrária.


A programação foi conduzida por Pedro, liderança do assentamento, que compartilhou a trajetória do Roseli Nunes, desde as primeiras ocupações até a consolidação do assentamento. Em uma roda de conversa marcada pela escuta e pela troca de experiências, os participantes puderam compreender que a conquista da terra é também a construção permanente de um projeto de sociedade.

“É a terceira vez que a gente recebe esse grupo aqui no assentamento. Sempre vem um grupo novo para conhecer a nossa realidade, conhecer como nós, enquanto sem-terra, vivemos, como produzimos e como é o nosso dia a dia. Isso, para a gente, é muito importante.”
Para Pedro, abrir as portas do assentamento significa também disputar narrativas sobre o campo brasileiro e fortalecer o diálogo entre quem produz conhecimento e quem produz a vida.
“É muito importante essa divulgação que esses estudantes vêm fazendo para contrapor também à mídia, porque ela vem distorcendo muito a nossa imagem enquanto sem-terra.”

Ao redor da mesa do almoço, preparada com alimentos cultivados pelas próprias famílias do assentamento, a experiência ganhou outro significado. Cada alimento servido carregava consigo o trabalho coletivo, o cuidado com a terra e a defesa da agricultura familiar como expressão da soberania alimentar e da reforma agrária popular.
A visita também revelou a dimensão ambiental dessa luta. Antes da chegada das famílias, a área era ocupada pelo monocultivo de eucalipto, que comprometeu o solo e as nascentes da região. O trabalho realizado desde a ocupação busca recuperar a fertilidade da terra e restabelecer o equilíbrio do território.
“Quando nós viemos para cá, tinha muito eucalipto e as nascentes praticamente tinham acabado. Depois que fomos assentados, cortamos o eucalipto e as nascentes voltaram. Hoje ainda produzimos de forma restrita, porque o solo ficou muito degradado, mas estamos cuidando da terra para que ela volte a ser produtiva.”

A história do Assentamento Roseli Nunes é marcada pela persistência. Há 20 anos atrás, centenas de famílias ocuparam a fazenda por se tratar de uma área improdutiva. Após uma reintegração de posse e mais de um ano de resistência às margens da estrada, conquistaram o direito de retornar definitivamente ao território.
“Nós entramos na fazenda em 2006. Depois de três meses sofremos a reintegração de posse e ficamos acampados na beira da estrada. Um ano e oito meses depois voltamos para dentro da fazenda em caráter definitivo. Foi quando o INCRA se imitiu na posse e parcelou a fazenda para as famílias assentadas.”

Para a Escola de Teatro Popular, experiências como essa reafirmam que a formação não se restringe aos palcos. Ela se constrói também nos territórios onde a cultura se encontra com a organização popular e onde a arte aprende a reconhecer, na luta social, uma de suas maiores fontes de transformação.
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