Teatro e luta nas ruas: ETP e MUCA apresentam intervenção no ato do 8 de março no Rio
17.03.2026
O Núcleo Feminista da Escola de Teatro Popular (ETP) levou arte e política para as ruas do Rio de Janeiro na abertura do ato do 8 de março, o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. A intervenção cênica foi construída coletivamente pelo núcleo feminista, envolvendo integrantes de toda a escola e em articulação com o Movimento Unificado dos Camelôs (MUCA), trazendo para o centro da cena as lutas das mulheres trabalhadoras da cidade.

Apresentada logo no início da manifestação, a cena utilizou elementos do teatro popular e da intervenção de rua para retratar o cotidiano de uma camelô mulher negra, representada por uma boneca gigante. A personagem sintetizava a realidade de milhares de mulheres que enfrentam diariamente a sobrecarga do trabalho e da sobrevivência: cuidar da casa, dos filhos, pagar contas, cozinhar e, ao mesmo tempo, garantir o sustento vendendo suas mercadorias nas ruas da cidade.

Enquanto a personagem atravessa essas múltiplas tarefas, surge na cena a polícia que faz o “rapa”, figura caracterizada como um porco. Entra em cena a repressão da guarda municipal contra trabalhadores ambulantes, política que se intensificou na gestão do prefeito Eduardo Paes e que atinge diretamente camelôs e, em especial, as mulheres que vivem desse trabalho nas ruas da cidade. A presença desse personagem evidencia a violência cotidiana sofrida por quem luta para garantir o sustento de sua família, ao mesmo tempo em que levanta uma pergunta central: como essa mulher pode se organizar e lutar diante da sobrecarga do trabalho, da precarização da vida e da repressão do poder público?
A resposta surge na própria cena. À medida que a personagem enfrenta a repressão, mulheres e integrantes organizados da ETP se aproximam, formando um coletivo que se coloca ao lado dela. Juntas, colocam a repressão para correr, afirmando na prática que a organização coletiva é o caminho para enfrentar as injustiças. O momento final é marcado pelo coro cantando a música “Povoada”, encerrando a intervenção com a força da coletividade.
Para Maria dos Camelôs, liderança do MUCA, a apresentação foi um momento de emoção e afirmação política: “A gente apresentou uma cena maravilhosa que me deixou emocionada aqui com a ETP. Uma cena falando das camelôs da cidade e a gente precisa reafirmar que camelô é trabalhador e que a gente vai ocupar esses espaços sim para levar sustento para nossa casa, pra organizar nossa família e para ter dignidade. O MUCA e a ETP estão juntos para colocar as mulheres na luta”.
A construção da intervenção também expressa a perspectiva política que orienta o trabalho do Núcleo Feminista da ETP. Segundo Amanda Nolasco, integrante da escola: “estivemos presentes no ato do 8 de março, e a ETP e o MUCA se propõem a pensar e construir um feminismo que seja anticapitalista, um feminismo que não esteja disposto a conciliar a vida e a dignidade da classe trabalhadora”.
A participação no ato reforça a proposta da Escola de Teatro Popular de colocar o teatro a serviço das lutas sociais, transformando a arte em instrumento de organização, denúncia e mobilização. A intervenção mostrou que o teatro pode ocupar as ruas para afirmar a dignidade do trabalho popular e fortalecer a luta das mulheres trabalhadoras.
O projeto “Escola de Teatro Popular” conta com patrocínio do Ministério da Cultura, através da emenda 958743
