Palhaçaria, luta de classes e dramaturgia popular: o encontro entre Lona Preta e ETP
24.02.2026
Nos dias 21 e 22 de fevereiro, o auditório do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro se transformou em picadeiro, sala de ensaio e espaço de construção coletiva. A Trupe Lona Preta conduziu uma imersão com a Escola de Teatro Popular (ETP), aprofundando ferramentas de palhaçaria, construção dramatúrgica e crítica social a partir de uma perspectiva de teatro popular.



Logo na apresentação, Sérgio Carozzi e Joel Carozzi retomaram um gesto que atravessa a trajetória do grupo: pedir que cada participante se apresentasse dizendo a profissão dos pais. A estratégia, aparentemente simples, revela um posicionamento estético e político. Como afirmaram, trata-se de “descobrir” que fazem teatro de e para a classe trabalhadora.
“Nosso grupo desenvolve um trabalho há 20 anos na periferia de São Paulo. A gente começou uma pesquisa de palhaço, de palhaçada, e foi atrelando essa pesquisa com a crítica social e com a linguagem da música”, explicou Joel Carozzi. Ao longo dessas duas décadas, a trupe consolidou um repertório de sete espetáculos e um conjunto de ferramentas que definem como teatro popular: “um teatro que cabe em vários espaços, pensado na periferia, para a periferia”, complementa.
Corpo de trabalho, não dom
A primeira parte da oficina mergulhou na dimensão física da cena. O ponto de partida não foi o talento nem o dom, mas o trabalho. “A gente parte dessa construção do elementar: do corpo, que é um corpo de trabalho, tentando desconstruir a ideia de talento e construir a ideia de trabalho físico”, destaca Joel.
Os exercícios conduziram os participantes à experiência do extra cotidiano, um estado em que o corpo sai dos automatismos do dia a dia e passa a agir a partir de outras dinâmicas. A proposta era abandonar gestos habituais e investigar novas qualidades de movimento. Com muito entusiasmo, a integrante do Núcleo Centro da ETP, Marisa Brandão destacou o impacto desse processo. Para ela, “tirar o corpo do cotidiano é lembrar das capacidades do corpo e da mente humana, que a repetição do dia a dia nos limita”.
Na exploração dos elementos da natureza, os participantes investigaram diferentes qualidades de movimento para deslocar o corpo do lugar cotidiano: a fluidez e adaptação da água, a expansão e a força variável do ar e as intensidades do fogo, da chama contida à explosão. Cada elemento propunha uma dinâmica específica de energia, ritmo e presença, ampliando as possibilidades expressivas do corpo em cena.
As imagens evocadas são radicalmente cotidianas. Ao invés de referências abstratas, os oficineiros trabalham com experiências comuns, acessíveis. Essa escolha aproxima a prática da vida concreta e evidencia diferenças de repertório entre contextos sociais distintos sem hierarquizar saberes, mas evidenciando que o teatro popular parte do chão.
O desdobramento do exercício levou à combinação entre elementos e profissões escolhidas pelo grupo — “um feirante de fogo”, “uma freira de água” — explorando volumes, intensidades e comportamentos corporais. Um jogo para deslocar o corpo do lugar habitual e abrir caminho para a composição cômica.
Ferramentas do riso e decisão em cena
A palhaçaria apareceu não como improviso descontrolado, mas como estrutura e ferramenta. Nem tudo é improviso. Nem tudo é técnica. É preciso provocar: que temas queremos colocar em cena?
No clássico jogo da corda, a tarefa era entrar e sair no ritmo, enfrentar a cena com decisão. Muitas vezes colocamos muita coisa entre nós e a cena, esse foi o convite à reflexão durante a oficina. A ansiedade de acertar pode bloquear o estar presente, mesmo que seja apenas nos segundos entre o bater da corda.
Para a trupe, o riso é construção. “A gente trabalha com a ideia de ferramentas. Ferramentas do riso. Quais procedimentos favorecem ou não a construção de uma piada?”, complementa Sérgio Carozzi. A comicidade é resultado de escolhas precisas, de ritmo, de relação.
Encontro de identidades
Para além das técnicas, o encontro revelou afinidades políticas e estéticas. “A gente achou muito massa a recepção da galera animada, em pleno carnaval, comprometida com o trabalho de criar cenas, dialogar com os territórios e com a arte popular. A arte que é feita nos espaços públicos, espaços de luta”, disseram. E completaram os irmãos: “A gente se sente parte de um processo maior do que o nosso. Já tem gente pensando nisso. Ficamos felizes de contribuir e aprender muito com essa troca.”
A oficina terminou, mas deixou aberta a possibilidade de continuidade. Uma circulação de espetáculos, visitas entre Rio e São Paulo, fortalecimento de redes. Um teatro que se faz em diálogo com territórios, com espaços públicos, com a luta.
Entre água, ar e fogo; entre cordas, escadas e tanques de palhaço, a oficina reafirmou um princípio caro tanto à Trupe Lona Preta quanto à ETP: o teatro é trabalho, é ferramenta e é escolha. Escolha de classe, de linguagem e de público.