Augusto Boal

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                                                                                              por Fabiana Comparato

 

Dia 18 de Maio marca o dia da Luta Antimanicomial no Brasil. O Instituto Augusto Boal apoia esse movimento e se junta a essa luta de extrema importância, não só para as políticas de saúde mental do país, mas para todos que prezam e lutam por uma sociedade verdadeiramente democrática, tolerante e menos desigual para todos.

Mais de 30 anos depois do manifesto inicial dos trabalhadores da saúde mental, em 1987, que inaugurou um novo momento da Reforma Psiquiátrica no Brasil, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial ainda se faz essencial e necessário. É tempo de reafirmar essa luta que também dialoga e se mistura com a própria história e prática politico-teatral de liberdade de Boal. E que encontrou na metodologia do Teatro do Oprimido importante aliada capaz de contribuir com leveza e sensibilidade para as práticas de cuidado.

A atuação do Centro de Teatro do Oprimido na saúde mental teve início ainda em 1994 no Rio de Janeiro, sob a tutela de Boal. Primeiro na Casa das Palmeiras, da Dra. Nise da Silveira e no Hospital Psiquiátrico Dom Pedro II, com o grupo “As Princesas de Dom Pedro”, e em seguida no Hospital Psiquiátrico Jurujuba, com o grupo “Pirei na Cenna”. Desde então, mesmo após sua morte (em 2009), a pesquisa de Boal continuou a se alastrar como um instrumento terapêutico poderoso para a saúde mental.

Como Pedro Gabriel Delgado, que foi coordenador Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde de 2000 a 2010, pontuou no seu texto para a publicação “Metaxis – Teatro do Oprimido na Saúde Mental” (do Centro do Teatro de Oprimido) de 2011: “Seguindo a estrela de Augusto Boal, o CTO se coloca como instrumento para a construção de possibilidades de cuidado e de vida para outras pessoas. Os CAPS e a Reforma Psiquiátrica Brasileira agradecem.”

Mas a pesquisa de Boal dentro do Teatro do Oprimido chega ao âmbito da saúde mental ainda muito antes do início efetivo dos trabalhos do CTO no Rio de Janeiro nos anos 90 e do próprio marco inicial do Movimento Nacional Antimanicomial no final dos anos 80.

Em seu livro “Arco-Iris do Desejo” (que ganhou sua primeira edição no Brasil em 1990), o teatrólogo conta um pouco da gênese desse trabalho, que como ele mesmo coloca, fez parte de uma nova etapa de uma longa pesquisa que ainda era o Teatro do Oprimido, “mas um novo Teatro do Oprimido.”

Boal relata um de seus próprios marcos iniciais nessa trajetória junto com Cecilia Thumin, sua companheira e colaboradora. Em 1979, logo após chegarem a França, onde viveriam ainda 8 anos exilados da ditadura militar brasileira, os dois, a convite do médico Roger Gentis, dirigem uma oficina do Teatro do Oprimido no hospital psiquiátrico de Fleury-les-Aubris. A oficina, de dois meses de duração, que à princípio poderia incluir os estagiários, enfermeiros, médicos e pessoal da administração dispostos a participarem, acabou ganhando um outro novo corpo inesperado.

Boal e Cecilia criaram uma cena, no modelo de Teatro-Fórum, baseada em um episódio conflituoso vivenciado por um dos enfermeiros da instituição. A ideia, utilizando esse método, era promover um debate a cerca das questões éticas e comportamentais entre funcionários, médicos e pacientes suscitadas a partir da cena teatral apresentada. Mas foi quando o próprio enfermeiro protagonista do episódio pediu para que a cena fosse aberta ao público geral do hospital, que uma nova possibilidade se apresentou. Como conta Boal neste trecho do livro:

“devíamos anunciá-lo [o espetáculo] ao conjunto do complexo hospitalar, formado de aproximadamente dez pavilhões, um restaurante, a administração etc., e convidar todo o pessoal: os médicos e, sobretudo, os enfermeiros. Claude [o enfermeiro cujo relato foi utilizado na cena] queria saber como os outros teriam se comportado em seu lugar. O anúncio foi feito e o previsível – que nenhum de nós havia antevisto – aconteceu: os doentes tomaram conhecimento do espetáculo e quiseram vê-lo.

Pânico! (…) Seria correto autorizá-los a assistir às discussões, aos debates, à troca de idéias das quais eles eram “objeto”?

Os “sim” foram majoritários. O Teatro do Oprimido sendo uma forma democrática de teatro (exatamente como ali se praticava!), não podíamos impedir a entrada dos doentes. Eles vieram, entusiasmados… e numerosos: representavam pelo menos oitenta por cento do público.

Para ser franco, tive medo. Era a primeira vez que me deparava com um público como aquele. O que dizer? Difícil de explicar. Não nos esqueçamos de que não sou um terapeuta; sou um homem de teatro. (…) Durante meus trinta e cinco anos de teatro profissional havia conhecido mil maneiras diferentes de vivenciar a relação animador-público. Mas nesse caso, tudo era novo para mim.

Cecilia sugeriu que eu procedesse exatamente como o faria numa situação normal. Decidi então não modificar nada, agir como sempre o faço em qualquer Teatro-Fórum. E foi isso que fiz. Expliquei as regras do jogo. Resolvi propor alguns exercícios, os mesmos que me pareciam ser mais eficazes para qualquer outro público. E observei que os doentes os realizavam melhor que os enfermeiros.

(…)

Foi algo bonito de se ver. Pela primeira vez, doentes assistiam a debates dos quais eles mesmos eram o objeto; pela primeira vez, assistiam a discussões entre médicos e enfermeiros, enxergavam a vida “do outro lado”, descobriam o que se pensava a seu respeito, coisa que era, em geral, muito diferente daquilo que diretamente se lhes dizia. Era bonito. E era cada vez mais comovente.”

E agora, Cecilia Thumin Boal, que além de ter participado ativamente deste processo de descoberta, também se formou psicanalista, complementa a história. Finalizando esse texto-manifesto em apoio à Luta Antimanicomial no Brasil, ela nos cede uma breve entrevista, onde revela mais detalhes deste momento que Boal e ela exploraram juntos, e nos oferece algumas palavras sobre a contínua importância desta luta em nosso país.

 

Cecilia, poderia nos contar um pouco mais como surgiu a ideia de engajar as técnicas do TO no âmbito da saúde mental ainda na França? Como se deu esse contato com o Dr. Roger Gentis?

 

Emile Copfermann, que era o editor de Boal na França e que publicou o Teatro do Oprimido pela primeira vez em francês, também era amigo e publicava, na época, os trabalhos do médico psiquiatra Roger Gentis. A ideia de colocar os dois em contato foi de Emile. Ele organizou um jantar em sua casa e desse encontro Roger Gentis nos convidou para experimentar com uma oficina de teatro no hospital de Fleury-les-Aubry, que como Boal conta, acabou também por envolver os pacientes psiquiátricos. Roger Gentis questionava muito as práticas convencionais do sistema psiquiátrico. Ele era um militante de uma nova forma de psiquiatria não estigmatizante e acho que foi isso que fez com ele se interessasse pelo Teatro do Oprimido e nos convidasse para essa experiencia.

 

Na publicação “Metaxis” do CTO você conta de uma experiência sua com uma colega no hospital psiquiátrico de Eaubonne propondo oficinas de teatro, na mesma época em que você e Boal estavam em exílio na França. Pode nos contar um pouco como foi esse seu trabalho?

 

Nesta época eu estava cursando Psicologia na Universidade de Sorbonne e, como participava com Boal das oficinas do Teatro do Oprimido, queria utilizar teatro como uma ferramenta em meu estágio. Apresentei essa proposta para muitos hospitais e clínicas, mas o teatro provocava muito medo no meio psiquiátrico francês da época. O hospital de Eaubonne, mesmo receoso, foi o que aceitou. E para lá fomos, eu e uma colega de faculdade, que não fazia teatro, mas que também topou a proposta. Trabalhávamos duas vezes por semana, com cerca de vinte participantes, principalmente com improvisações. Nosso ateliê funcionava como se os participantes não fossem pacientes de um hospital, mas sim atores, enquanto eu me ausentava do papel de terapeuta e assumia o de diretora de teatro. No papel de diretora eu podia “dirigir” o grupo, com grande liberdade junto aos pacientes, criando “enquadramentos”, ou seja, regras e limites, que os próprios exercícios de improvisação teatral exigem, e que dentro desse jogo eram aceitas pelo grupo. O ateliê de Eaubonne me permitiu constatar que o teatro poderia ser utilizado, não como uma terapia em si, mas de fato como um elemento terapêutico.

 

Por fim, poderia nos falar um pouco sobre a importância da luta Antimanicomial.

 

Acredito que nesse momento de retrocessos que o país vive a grande preocupação é com a possibilidade dos pacientes voltarem a ser maltratados de forma institucionalizada e não terem seus direitos como cidadãos respeitados. Toda essa luta que vem sendo travada (do movimento antimanicomial) é exatamente no sentido de respeitar os direitos dos pacientes, daqueles que se veem na situação de ter que passar momentos de suas vidas internados em instituições, a não passarem por situações de violência e maltrato. É muito preocupante imaginar que reformas psiquiátricas importantes já alcançadas estejam correndo risco de retroceder.

 

Para informações a respeito dos eventos e atos que marcam a semana e o dia da Luta Antimanicomial 2019, por favor, ver links no Facebook do Instituto – https://www.facebook.com/instaugustoboal/ .

Fui uma adolescente bastante alienada. Sabia que havia uma ditadura,
mas minha família melhorou de vida durante o “milagre brasileiro” dos
anos 70. Até entrar na universidade, ignorava a tortura, os assassinatos
nas prisões, o desaparecimento de corpos. Só na USP meus colegas me
alertaram para o que acontecia no país. Virei de esquerda. Ainda sou.
Enquanto isso, aquele que viria a ser meu amigo quatro décadas depois,
foi preso e torturado por seu trabalho revolucionário com o “Teatro do
Oprimido” – uma invenção de Augusto Boal para conscientizar as pessoas
a respeito de todas as formas invisíveis de opressão que sofriam.
Conheci Boal através de sua amada mulher, Cecília, integrante de um
grupo de estudos que coordenei, no Rio, entre 1998 e 2011. Cecília me
hospedava em sua casa, mas no começo ele nem me dava bola. Era
educado, gentil, mas passava quase todo o tempo escrevendo, no
escritório envidraçado que eu chamava de “aquário”. Uma vez, Cecília foi
com ele a uma mesa redonda da qual participei, sobre Sociedade do
Espetáculo. Sua intervenção foi uma aula para nós, expositores. E depois
disso ele passou a me considerar como interlocutora.
Tive a alegria (e hoje penso: a honra) de participar de alguns momentos
importantes da vida desse casal; estava no Rio na comemoração do dia em
que Augusto perfilhou Fabián, filho do primeiro casamento da Cecília,
depois da morte do pai dele. E de novo, no dia em que fui assistir a uma
aula dele, na UFRJ. Como era claro no que ensinava; como era
entusiasmado! Fui também uma orgulhosa integrante do desfile de uma
pequena Escola de Samba da Barra Rio das Pedras que o homenageou, em
2003. Naquela altura, Augusto já sofria com um joelho arruinado na
tortura, mas subiu no carro alegórico e se aguentou lá em cima, apoiado
em uma muleta.
Em 2006, me pediu que fizesse o prefácio de seu livro – que seria o último,
mas não sabíamos disso… Com alguma timidez, anotei passagens que
achei que deveriam mudar, palavras a corrigir, etc. Fui falar com ele,
preocupada com a reação. Nada disso: Augusto respeitava todo mundo
(menos, provavelmente, torturadores e seus mandantes…). Ouviu minhas
ponderações, aceitou muitas delas, mexeu no livro.

Pouco depois, em 2009, Augusto morreu. Não era hora. Nunca é hora –
mas no caso dele, menos ainda. O Brasil ainda precisaria tanto do Boal!
Hoje, mais ainda – mas também penso que foi uma sorte ele não ter
passado pela tristeza de ver seu país eleger Bolsonaro.
Hoje temos o Instituto Boal, temos a grande Cecília, temos Julián Boal que
leva adiante o trabalho do pai. Mas só de escrever sobre a falta que ele faz
– para nós que o amávamos, para o Brasil que piorou tanto – sinto
vontade de chorar.
Maria Rita Kehl
Maria Rita é psicanalista e vice presidente do Instituto Augusto Boal

“Teatro não pode ser apenas um evento — é forma de vida!”

(Augusto Boal, 29 de março de 2009)

2 de maio de 2019, dia que marca o aniversário de 10 anos de morte de Augusto Boal, é sobretudo um dia de celebração de sua obra e trajetória com o lançamento da nova edição do seu livro “Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas”, com prefácio de Julián Boal.

O evento que acontece hoje, às 19h, no Armazém do Campo (aberto ao público), terá uma mesa de conversa com a participação de Julián Boal (Escola do Teatro Popular), Marina Henriques (Unirio), Geo Britto (Centro de Teatro do Oprimido) e Mineirinho (Coletivo Nacional de Cultura do MST), numa verdadeira celebração do legado nos deixado por Boal que persiste extremamente pertinente. Estão todos convidados!

Nesta foto, uma de suas últimas, Boal está na sede da UNESCO em Paris, para onde viajou apenas meses antes de falecer, para uma cerimônia no dia 29 de março, na qual foi nomeado “Embaixador Mundial do Teatro para o ano de 2009” pelo Instituto Internacional de Teatro (ITI). Uma bela homenagem e reconhecimento, ainda em vida, por sua preciosa contribuição não só para a construção de uma dramaturgia verdadeiramente brasileira, que constitui capítulo importante da história e da cultura do nosso país, mas para tantos outros países e pessoas alcançados e transformados por suas práticas teatrais de liberdade (que continuam vivas até hoje).

Lá, Boal proferiu sua última e contundente fala pública. Palavras que continuam a ressoar em sentido e relevância, e vigoram, mesmo passada uma década, como uma provocação necessária a todos nós, atores das nossas próprias vidas e cidadãos.

“Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

(…)

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”

Viva Boal!

(A íntegra do discurso, previamente publicado neste blog, pode ser encontrado aqui)

Em abril de 1967 o Teatro de Arena estreava a peça “Arena conta Tiradentes”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarniere, dirigida por Boal.

“O tema era resistência à ditadura. Liberdade cidadã e estética. Escolhemos a Inconfidência Mineira” (Conta Boal em sua autobiografia)

A peça que fala sobre heroismo critica a mistificação da figura de Tiradentes criada pela burguesia, do Tiradentes como herói porque foi mártir. Boal retoma o heroismo de Tiradentes no seu caráter revolucionário, como aquele que lutou para transformar a realidade de seu país. Fala sobre a liberdade cidadã.

Mas para além da critica a mistificação do herói, este espetáculo inaugura também uma nova forma de interpretação proposta por Boal: o sistema coringa. Fala sobre a liberdade estética que o sistema coringa proporciona.

Na sistematização do sistema coringa, Boal explica:

“O sistema coringa busca unir também os princípios da concentração e da abstração. Em “Arena conta Tiradentes” o personagem de Tiradentes era identificada a um só ator, que se movia em atmosfera naturalista. No extremo oposto, Guarniere desempenhava a função coringa: a extrema abstração, o narrador, mestre de cerimônias, contra regra, explicador, conferencista, etc. Entre estas duas funções extremas cabem todos os estilos”.

Publicada na Revista Direitos Humanos, em 2008:

Entrevista Augusto Boal Para O Movimento Humanos Direitos (pdf)

Hoje, mais um artigo relacionado com teatro nas prisões, por Augusto Boal:

Jovens em conflitos com a lei e… consigo mesmos

Compartilhamos hoje um artigo de Augusto Boal, sobre trabalho de teatro nas prisões:

A ética e a moral dentro e fora das celas

Compartilhamos com vocês o trabalho de conclusão de curso do Rafael dos Santos de Almeida Campos, orientado pela Profa. Dra. Silvia Beatriz Adoue:

TCC – O Curinga na Educação; O Teatro do Oprimido comoPratica Pedagogica

 

 

Hoje é dia de Boal! Dia de celebrar seu aniversário!!
O Instituto gostaria de compartilhar com vocês nesta data especial, um texto que é muito característico do estilo de escrita do Boal: “Diplomas falsos, chantagens verdadeiras”.

Tenho um conhecido rico ou, mais do que isso, milionário, que não faz nada, maravilhosamente nada. Jamais viu a ponte do Leblon, porque o pôr-do-sol sempre custa um esforço visual. Mas, como todo sujeito que não faz nada, precisa dizer que faz tudo. E vive esbravejando: – Trabalho tanto que não vejo um teatro!”. Pausa, e arqueja: – “Não tenho tempo de ver um teatro!”.

Sempre que nos encontramos vem com a mesma conversa: -“Palavra de honra, não vejo um teatro!”. Até que um dia fiz-lhe a pergunta, à queima roupa: – “Desde quando não vês um teatro?”. Fui cruel e confesso. Por um momento não soube o que dizer. Abria a boca, mas o som não saía. Acabou admitindo que não via teatro desde a primeira fralda e antes da primeira chupeta.

Para esses que a partir dos gregos até os nossos dias jamais viram uma peça, talvez o nome e a figura de Augusto Boal não signifiquem nada. As para os que têm um mínimo de sensibilidade para o teatro, Augusto Boal representa muito. Na minha crônica de ontem dizia eu que ele é um dos maiores autores e diretores do drama brasileiro.

Se acham pouco, acrescentarei que é uma das maiores figuras do teatro em toda a América Latina. Muito bem. Há coisa de três ou quatro dias soube eu que ele estava preso, em São Paulo. Nada se compara ao meu espanto e nada o descreve, Preso por quê, a troco de quê? Se me perguntarem o que faz Augusto Boal, darei esta resposta: – “Faz teatro”. Poderão insistir: “Mas além de teatro?”. E eu: – “Só teatro”. Vamos admitir que o leitor continue: – “E o que pensa Augusto Boal? “. Minha resposta: – “Pensa em teatro”.

Pode parecer inverossímil. Mas o teatro exige exclusividade. No homem de teatro, a atividade política é o disfarce da frustração e da impotência artísticas. Mas o dramaturgo e o director, o ator e a atriz, o contra-regra e os bilheteiros – não sabem fazer outra coisa. Claro que, em qualquer arte, há os que a falsificam. Augusto Boal, porém, não foi, jamais um falsário.

Se um dia acabarem com o teatro, estejam certos de que ele vai sumir, desaparecer, como se jamais tivesse existido. Imagino que minha ênfase possa espantar o leitor. Mas explico: – conheço o Boal há trinta anos. Ele está fazendo quarenta anos e já completei meus 58. A primeira vez que o vi foi no Fênix, nos fundos do Palace-Hotel (e ambos já sumiram).

Vi aquele garoto na porta do tearto (realmente um garoto). Aos seus olhos eu era o “grande autor”. Apresentou-se como um admirador. Estava em cena a “minha tragédia carioca”, Vestido de Noiva. Boal passou dois meses assistindo a todas as representações. Não perdeu uma. Desde então começou uma amizade, que continua até hoje. Portanto, há trinta anos que sou testemunha auditiva e visual de sua fidelidade ao teatro.

Um dia eu o encontrei no velório de um conhecido. Não havia ainda a indignidade dos círios elétricos. Mas enquantos uns discutiam futebol, outros falavam mal do defunto – eu e Boal, num canto, cochicávamos sobre teatro. Ele vivia imaginando peças, histórias, personagens. Segundo deduzi, fazia, como Eugene O’Neill, vários dramas ao mesmo tempo. Eu o animava muito: – “Escreva, vá escrevendo. Teatro é fazer, fazer, fazer”.

Há pouco tempo foi chamado para dirigir e apresentar em 22 universidades americanas os espetáculos do nosso Teatro de Arena. A ONU também o convidou para realizar pesquisas sobre o seu sistema Corinda, que é rigorosamente original. Dirão os idiotas da objetividade que nada de novo se pode fazer dentro do teatro.

Isso é absolutamente falso. Tudo se pode fazer de novo. Eu diria que, apesar dos gênios, dos gregos, de Shakespeare etc. etc., o teatro é uma arte por fazer, uma arte que ainda está sendo feita. Portanto, o que se quer dos que o fazem é toda sorte de originalidades.

Poderão objetar que um gênio escreveu, certa vez, que a criação teatral estava reduzida a 37 situações. Era um gênio, mas não importa. Nada mais ingênuo, pueril, tolo ou mesmo obtuso. As 37 situações são, no mínimo 900 mil. Até aqui o que se viu foi o seguinte: – não há um texto, mesmo shakespeariano, que não tenha a influência decisiva da plateia. As duzentas senhoras gordas (e sentadas) de cada sessão estão ali como autoras. E não ocorre a ninguém que o public tem apenas a função de pagante.

Tudo o que ficou ditto acima exigiria, no mínimo, um ensaio de oitocentas páginas. Oitocentas páginas, e eu só tenho, escassamente, uma coluna. Mas voltemos ao dramaturgo preso. O Coringa é uma ponderosa invenção, um elemento novo no dinamismo do espetáculo. Invenção, repito, que está merecendo a curiosidade da crítica internacional.

Ah, antes que me esqueça: – um dos últimos convites pessoais que meu amigo recebeu foi para representar o teatro brasileiro em Nancy. Boal terá direito a dez representações, enquanto a Inglaterra, por exemplo, está limitada a três. Por aí se vê como fez nome, não apenas no Brasil, mas na Europa e nos Estados Unidos. Na grande nação norte-americana seu trânsito é livre. Lá dirigiu espetáculos, apresentou originais brasileiros, inclusive seus, e é considerado um dos grandes poetas dramáticos do Brasil e da América Latina.

Cabe a pergunta: – se é tão inocente, como o prendem? Vejamos. Eu sou, como se sabe, de uma insuspeição total. Venho com a Revolução desde o primeiro momento e antes do primeiro momento. Sim, muito antes do primeiro momento eu achava que só as Forças Armadas podiam salvar o Brasil. E de fato elas o salvaram. Portanto, é como revolucionário que estou dando meu testemunho sobre um homem preso como subversivo.

Repito: – o que fez meu amigo? Sua vida é uma apaixonada meditação sobre o mistério teatral. Se é crime “fazer teatro”, então que o prendam. Se é crime estudar teatro – prendam-no. Porque ele não faz, nem fará jamais, outra coisa.

Foi decretada a sua prisão preventiva. Por isso mesmo estou dando meu testemunho. Paro um momento e pergunto a mim mesmo: – o que é que eu teria mais a dizer? Não podemos interromper a obra que está amadurecendo no seu curacao, não podemos encerrar uma obra que irá tão longe, tão longe. Nem podemos perder as dez representações em Nancy.

Depois de trinta anos de convivência, e repito: – depois de trinta anos de intimidade quase diária, ouso afirmar que esse homem não fez nada senão teatro e é apenas o artista, em sua integridade irredutível. Desculpem que eu esteja repisando obsessivamente. Se for julgado, que seja absolvido. Amém. [18/03/1971]

 

(Texto retirado do livro O Reacionário, memórias e confissões, de Nelson Rodrigues)