Blog
Há cinco anos Augusto Boal participou do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e produziu a reflexão “O Teatro do Oprimido no Fórum Social, 2003”. Estamos em semana de Fórum Social novamente, dessa vez em Salvador, e além de compartilhar o texto de Boal, gostaríamos de fazer um convite a participar da programação de amanhã que contará com Diol Mamadou (Senegal), Movimento Sem Teto da Bahia (Bahia), Movimento Popular La Dignidad (Argentina) e Julian Boal em “O Teatro do Oprimido entre África e Latino-América”.

“Teatro do Oprimido no Fórum Social, 2003
Todas as sociedades humanas se apresentam de forma mais ou menos organizada. Nelas, nós distinguimos certas camadas, possuidoras de certas funções mais ou menos determinadas. Cada camada, cada setor, cada agrupamento social, tem seus limites e suas metas mais ou menos precisos.
Todas as categorias sociais são definidas sempre como sendo “mais ou menos”, porque elas se referem a seres humanos, vivos e reais, e não a elementos químicos, como o oxigênio ou o plutônio, que podem ser purificados em laboratório, afim de que nos tragam, o primeiro, a vida, e o segundo, a morte. Estas são as fundamentais preocupações dos seres humanos: a vida e a morte! Ambas são puras!
Nós não corremos o risco de sermos puros – jamais nos encontraremos em estado de pureza absoluta, por maiores que sejam as nossas penitências, por mais bem intencionados que sejam os nossos corações e as nossas promessas. Seres humanos são, por sua natureza, ganga impura e não ouro nativo, como dizia, em referência à nossa língua, o poeta Olavo Bilac. Pelo menos nisso, eu sou freudiano clássico: somos todos porcos espinhos gregários, que sentimos a necessidade imperiosa de nos abraçarmos, e a fatalidade de nos espetarmos. (mais…)
Hoje no dia 16 de março de 2018 Augusto Boal completaria 87 anos!
Gostaríamos de homenageá-lo publicando um texto lindo que ele próprio escreveu em seu aniversário de 70 anos!

“AUGUSTO BOAL: OS PRÓXIMOS 70 ANOS
A PAISAGEM, A FAMÍLIA
Seguindo o exemplo dos mais velhos, eu nasci. Seguindo o exemplo dos meus pais, viajei. O exemplo do Nelson, escrevi. Do Gassner, estudei.
Seguindo o exemplo do poeta Antônio Machado, que me explicou que o caminho quem o faz é o caminhante ao caminhar, caminhei – nunca sozinho! – abrindo vielas, atalhos.
NA ARENA DO ARENA
Sempre tive irmãos: comecei em teatro aos nove anos, dirigindo irmãos – Augusta, Aída, Albertino, Gil – em fascículos do “Conde de Monte Cristo”, que minha mãe recebia pelo correio, sempre aos sábados; representávamos, sempre aos domingos, para uma platéia familiar, depois do ajantarado, sempre em nossa casa. Sempre tive, na minha infância, consistência.
Irmãos encontrei no Arena: anos a fio. Irmãos no Oficina, Opinião, Machete de Buenos Aires, Barraca de Lisboa, CTOs em Paris e aqui no Rio… Irmãos busquei a vida inteira. Sempre os tive. Rendo graças! (mais…)
Hoje se comemora o aniversário de Abdias Nascimento!
Foi através de Abdias Nascimento que Augusto Boal iniciou sua trajetória como dramaturgo, escrevendo peças para o Teatro Experimental do Negro (TEN). Algumas peças Boal escreveu para o TEN: “Filha moça”; “O logro”; “Laio se matou”; “O cavalo e o santo” e outras ele traduziu de Langston Hughes: “O mulato” e “A alma que volta pra casa”.

Abdias Nascimento e Augusto Boal em lançamento de livro. Fotografia de Cristina Lacerda disponível em nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br

Entramos na semana do aniversário de Boal, e continuamos nossa retrospectiva proposta para esse mês no blog.
Em 1957, depois do sucesso como diretor em sua primeira peça Ratos e Homens, no Teatro de Arena, Boal escreveu sua primeira peça no Brasil – “Marido magro, mulher chata”, na qual ele também dirigiu o elenco: Riva Nimtz, Vianinha, Vera Gertel, Geraldo Ferraz e Flavio Migliaccio. Nesta peça ele já esboçava o interesse em escrever uma dramaturgia originalmente brasileira ao retratar comicamente a vida de jovens moradores de Copacabana.
No mesmo ano, de 1957, Boal dirigiu também no Arena a peça Juno e o Pavão, uma peça de Sean O’Casey que retratava a guerra civil irlandesa. Em termos de direção, Boal ficara muito satisfeito: “Foi o espetáculo mais exato que tinha feito até então: emoção e rigor”. Treinava seus atores com o método de Stanislavski adaptando-o as condições do teatro brasileiro. E apesar de toda beleza e exatidão do espetáculo, Boal começou a perceber através da recepção do público, que o texto importado e traduzido não pertencia aquela realidade vivida na época: “Para quem se faz teatro? Para si ou para o público – e que público?”.
Essas percepções, relatadas por ele em sua autobiografia “Hamlet e o filho do padeiro”, foram importantes para os próximos passos dados por Boal no Arena, e na vida.

Programa da peça “Marido magro, mulher chata”. Disponível no nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br

Fotografias de “Juno e o Pavão”, de 1957. Disponível em nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br
É o mês de aniversário do Augusto Boal! E o Instituto Augusto Boal continua com a retrospectiva de sua carreira.
Ao retornar de sua primeira viagem aos Estados Unidos a estudos (plásticos e petróleos e teatro com John Gassner), e depois de ter se descoberto diretor e dramaturgo, Boal é convidado por José Renato e Sábato Magaldi a compor a direção do Teatro de Arena de São Paulo. No ano de 1956 dirigiu sua primeira peça no Arena e no Brasil: “Ratos e homens” de John Steinbeck.
E da mesma forma que tinha escutado de Gassner nos EUA: “Você é um dramaturgo”, ouvia agora, em 1956, de José Renato dizer: “Você é um diretor”. Augusto Boal foi muito elogiado em sua primeira direção e convidado para as próximas (dirigiu o Arena por mais 14 anos).
Sobre essa fase de sua vida, de descobertas vocacionais, Boal escreveu em sua autobiografia:
“Nunca tive certeza. Será que sou dramaturgo, diretor, professor, escritor, teórico? Tanta gente tem tanta certeza, sabe se definir – eu nunca soube. Sou talvez um, talvez outro.”
E até hoje, Boal não se encaixa em nenhuma definição limitadora: ele era um homem de teatro!
O escritor colombiano Gabriel García Marquez completaria hoje 91 anos.
Augusto Boal adaptou junto a Miguel Torres um conto de García Marquez: “La increíble y triste historia de Cándida Erendira y su abuela desalmada” e dirigiu em Paris, 1984 – “L’incroyable et triste histoire de la candide Erendira et de sa grand-mère diabolique” no Théâtre de l’Est Parisien (TEP).

Cartaz da montagem de Candida Erendira no Théatre de l’Est Parisien. Disponível em nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br

Notícia no Brasil sobre montagem da peça em Paris. Disponível em nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br
Neste mês de março comemoramos o aniversário de Augusto Boal! No intuito de homenageá-lo o Instituto Augusto Boal compartilhará com vocês lembranças importantes de sua carreira artística.
Nascido no bairro da Penha, Rio de Janeiro, começou jovem seus estudos na Faculdade de Química. Sua primeira aproximação com a cultura foi ali mesmo, no Diretório Acadêmico de seu curso onde se candidatou a vaga de Diretor do Departamento Cultural.
Após o término da faculdade, Augusto Boal convence o pai de que tem que fazer uma especialização em química no exterior. Na verdade, Boal já buscava aproximação com o teatro e escolheu ir para onde poderia estudar melhor sua paixão:
“Meu pai me deu direito a um ano de especialização no exterior. Podia estudar um ano inteiro. Engenharia Química, bem entendido. Pensei na França (tinha visto espetáculos franceses no Municipal), e nos Estados Unidos (gostava de O`Neill, Miller, Williams…) Mas teria que estudar petróleos e plásticos misturados com teatro.”
E Boal fez então os seus primeiros voos: teatral e geográfico – foi para os Estados Unidos estudar química e teatro. Foi estudando lá, na Columbia University, que se descobrira dramaturgo.
“Mr. Boal, you are a playwriter!”- disse John Gassner, renomado dramaturgo norte americano e na ocasião professor de Augusto Boal.
Curiosidade: graças a este diploma de especialização em química, mais tarde Boal conseguiu dar aulas na Universidade de Sorbonne, no seu exílio na França.
Trechos grifados tirados do livro Hamlet e o Filho do Padeiro, Memórias imaginadas de Augusto Boal, 2000 e curiosidade compartilhada por Cecilia Thumim Boal.

Augusto Boal em sua primeira viagem para Nova York. Fotografia disponível em nosso acervo: www.acervoaugustoboal.com.br
No ano de 2003 também, além de ser homenageado pelo Acadêmicos da Barra da Tijuca, Boal foi convidado para coreografar a Unidos de Vila Isabel no carnaval. Podemos ver a alegria de Boal em matéria publicada no jornal O Globo, no dia 20 de fevereiro de 2003, sobre sua coreografia para a comissão de frente da escola de samba.

Em 2003 a Acadêmicos da Barra da Tijuca homenageou Boal e o Teatro do Oprimido. Compartilhamos com vocês a letra e o link do vídeo no youtube para acompanhar e cantar o samba enredo!
“A vida é o cenário desta trama
E o povo, nosso artista principal
Palavras e gestos unidos
Surge em ritos primitivos
A linguagem teatral
Na Grécia, o teatro vai às ruas
Porque o artista vai aonde o povo está
Vem amor… Divino Baco vem brindar orgias
Realizando fantasias, embriagando corações
Festa e dor… Em Roma o coliseu e as multidões
A opressão do elitismo, ditames e imposições
Roda o mundo pra chegar – de lá pra cá
Vem das terras de além mar – catequizar
Reza índio! Reza negro!
Eita povo rezadeiro!
São as origens do teatro brasileiro
Meu canto traz um tom de encanto
Tenho a minha “opinião”
Do teatro de revista ao teatro de arena
O esplendor de uma nação…
(meu Brasil)
Ó! Meu Brasil “trigueiro”
Teu solo viu nascer a obra de “Boal”
Respeite o meu pandeiro
Que embala a voz do oprimido contra o mal
Sou Zé-Ninguém! Eu sou de arrepiar!
(bravo!)
E roubo a cena nessa festa popular
Agora bate o tambor
Vem balançar!
Abre a cortina que eu vou
Me apresentar!
É arte, é carnaval, vem sambar!
Pode aplaudir que a Barra vai passar”
Acesse no youtube o SAMBA ENREDO ACADEMICOS DA BARRA DA TIJUCA 2003
O Instituto Augusto Boal está em clima de Carnaval. Vamos comemorar esta data relembrando momentos importantes vividos por Boal em outros carnavais!
No ano 2000, Augusto Boal foi convidado para desfilar pela União da Ilha no carro alegórico “O Barco da Volta” que homenageava os artistas exilados políticos.
Em sinopse sobre o enredo do ano 2000 da União da Ilha de nome “Pra não dizer que não falei das flores”, encontramos as explicações para o convite ter sido dirigido à Boal:
“Nossa principal intenção é destacar o impulso criativo sugerido nas artes, em função da ditadura militar imposta no período de 1964 a 1984.
A dureza deste regime fez surgir no campo das artes a necessidade de defender nossas características culturais, e retomar o poder das mãos dos militares. Surgiu então, uma produção artística ( música, literatura, artes plásticas, cinema, teatro ) que combinava ousadia e determinação, evidenciando a postura de esquerda dos artistas.
A resposta dos militares foi imediata: Livros foram queimados, teatros invadidos, atores agredidos, letras de músicas, jornais e filmes proibidos!
A Censura era implacável, chegando a atingir até obras clássicas.
Em meio a tanta severidade, as forças armadas continuavam a espancar os estudantes no meio da rua, cujo entusiasmo político, e espirito de luta traziam novas idéias e novos comportamentos. Muitas prisões aconteceram, seguidas de torturas e humilhações. Muitos desapareceram após serem presos e barbaramente torturados. Ninguém estava a salvo desta caçada – desde as personalidades mais respeitáveis, até o mais humilde cidadão. Os artistas continuaram através de suas obras a reagir contra a ditadura. Um grupo de artistas optou pelo deboche e pela ironia para enfatizar uma alienação dirigida ( Movimento Tropicalista ), outros, de forma mais contundente, denunciaram as ilegalidades. (…)
O teatro teve um papel muito importante no sentido de trazer ao público a consciência dos fatos. Como principais espetáculos deste período destacamos:
1964 : ” Opinião”, simbolizando o nacionalismo do espetáculo, bem como a valorização do povo como autêntica fonte de cultura. 1965 : ” Arena conta Zumbi” Gianfrancesco Guarniere e Augusto Boal, com música de Edu Lobo, Ruy Guerra e Vinícius de Moraes. Dramatizando o episódio histórico do Quilombo dos Palmares, que sobreviveu no longo período de 1630 a 1694, mas em realidade criticando o regime imposto no país.
1967 : ” Arena conta Tiradentes”, a História da Inconfidência Mineira, fazendo um paralelo com a situação do Brasil naquele momento.
1968 : ” 1° festival Paulista de Opinião”, um conjunto de peças de 6 autores.”
Informações sobre o enredo encontradas no link: http://www.galeriadosamba.com.br/carnavais/uniao-da-ilha-do-governador/2000/25/