Augusto Boal

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Esse texto da pesquisadora e professora Iná Camargo Costa conta a trajetória de Augusto Boal no Teatro de Arena.

Enrique Buenaventura foi um importante diretor, dramaturgo, teórico, ator e poeta colombiano. Em 1955 fundou o TEC – Teatro Experimental de Cali. O texto de sua autoria que compartilhamos hoje data de 1970.

Quando colocamos online a página do Instituto Augusto Boal, a nossa intenção era divulgar o trabalho de Boal e também o do Instituto. Desde então temos tido algumas boas surpresas.

Muita gente já sabe que Boal nasceu na Penha (RJ), e que o seu pai, José Augusto, era dono de uma padaria famosa pelos seus pães e pela sua solidariedade.

Lá os vizinhos podiam usar o forno de lenha para os seus assados dominicais e, coisa preciosa, o telefone.

Graças a isso a padaria se tornou famosa, quase tão famosa quanto o próprio Augusto Boal.

Acontece que de vez em quando algum antigo vizinho da Penha nos lê no Facebook e entra em contato conosco.

É o caso de Antônio, casado com a filha da dona Solange , que entrou em contato para nos dizer que a sua sogra tinha trabalhado na padaria do seu Boal , que , naquela altura, já estava nas mãos de Albertino, o irmão médico , quem assumiu a padaria logo depois do falecimento do pai.

Pedimos a Layane que entrasse em contato com Solange e eis a historia.

O mais comovedor é o fato dela ter guardado preciosamente o cartão de Albertino Boal, médico, durante tantos e tantos anos.

Solange Maria de Lima:WhatsApp Image 2018-04-25 at 14.43.12

“No ano de 1989, eu estava na época com 19 anos, perdi meu emprego num supermercado e logo depois descobri que estava grávida e fiquei meio sem rumo porque não tinha como arrumar emprego, como eu ia arrumar emprego grávida, né? Aí o doutor Boal colocou no jornal  um anúncio pedindo  uma operadora de caixa para a padaria dele, ali na Lobo Junior. E eu fui assim mesmo, grávida, não falei nada e comecei a trabalhar. Fui trabalhando e o doutor Boal sempre me pedindo minha carteira para assinar, só que eu pensava assim: se ele assinar minha carteira, ele vai ter que pagar todos os meus direitos trabalhistas como se eu tivesse engravidado após o meu começo no trabalho, sendo que isso é uma inverdade porque eu já entrei grávida. Aí eu fiquei meio que enrolando para não perder o emprego e eu falava que ia levar a carteira e nunca levava. Quando foi um dia eu falei “quer saber? Eu vou falar a verdade”, aí eu falei com ele que estava grávida e ele me diria se me mandava embora ou não porque se eu desse a carteira e ele assinasse, depois ele ia ter que me pagar todos os direitos, me indenizar.  Eu acho que por isso, por eu ter dito a verdade, acabou que ele falou “não, pode ficar trabalhando até o final da gravidez”. Aí eu trabalhei, ele sempre me tratou muito bem, pegou uma confiança muito grande em mim. Ele falava do Augusto Boal, o irmão dele, que o irmão dele estava fazendo teatro e ele conversava muito comigo. Eu tive o bebê, fiquei um tempo sem trabalhar, acabei retornando. Dado um tempo, eu precisava de um emprego que pagasse mais, que eu pudesse ter uma ascensão. Eu precisava de uma carta de recomendação, ele (o doutor Boal) me deu uma  e eu só fiz entregar lá (na nova proposta de emprego) e já estava empregada ,  porque ele colocou que eu era secretária dele, que eu trabalhava há muitos anos com ele, ele falou que só me daria aquele papel porque confiava em mim. Passados dois anos, o gerente do doutor Boal vai lá em casa perguntar se eu to trabalhando porque o doutor Boal tava precisando de alguém para trabalhar com ele, se eu podia ir. Aí eu falei que poderia ir sim, só que tinha um problema, eu tava grávida de novo. O Antônio falou com ele, ele aceitou, trabalhei a gravidez toda. Ele quis conhecer a criança quando nasceu e eu sempre ia lá levar minhas filhas para ele ver. Eu agradeço muito ele porque foi em um dos momentos que eu mais precisava, que ninguém iria me empregar, ninguém iria ficar com uma pessoa grávida né?  Quando eu fui para ter minha filha, ele como tinha sido médico obstetra, me deu um cartão dizendo que eu era secretária dele, pedindo ao colega dele lá de Bonsucesso para me receber bem. Eu nunca fiz uso desse cartão, porque eu nunca gostei muito daquela coisa de “ah me trata bem porque eu conheço o fulano, beltrano”. Eu  acabei guardando o cartão por consideração, porque eu sempre fui muito grata a ele, por ele ter me aceito. Um dia, por acaso passei na padaria e perguntei ao Antônio por ele, aí ele me falou que tava tudo bem, nisso o telefone toca, era a notícia do falecimento do doutor Boal, eu achei curioso o fato de eu estar lá justamente naquela hora. Ele se dizia ateu, e tem tantas pessoas que às vezes se dizem religiosas e não deixam nada de bom para as pessoas lembrarem delas, ele foi uma das pessoas mais importantes na minha vida porque ele esteve presente nos dois momentos  em que eu mais precisei.

Na época os clientes da padaria eram aquelas pessoas conhecidas, que iam ali todos os dias. A padaria abria muito cedo naquela época, segunda a gente chegava e já tinha uma fila na porta. Na época eram aqueles fogões de lenha, hoje é tudo elétrico, mas na época era lenha então o doutor Boal tinha aquele galpão por trás da padaria que era cheio de lenha que era pra fazer os pães.  Eu me lembro bem das pessoas que eram clientes dessa época, engraçado, eu me lembro da fisionomia delas, me lembro que a maioria eram pessoas idosas. As pessoas às vezes comprava pão, mas na verdade eu tinha impressão que eles iam pra conversar também um pouquinho, pra tirar aquela coisa da solidão, porque muitos moravam sozinhos e iam lá comprar pão e acabavam conversando conosco e passando um pouco do tempo deles.”


Enviamos a entrevista para Sônia, sobrinha do Boal, que ficou emocionada e contribuiu conosco com seu comentário:

“Fiquei muito emocionada com esta história! Ele era exatamente assim. Ajudava todo mundo que ele podia, gostava de fazer amigos e todo mundo gostava dele. E a letra é dele mesmo. Embora ela não tenha feito uso do cartão, acho que ela deveria ter usado, porque não era um favor e sim uma maneira dele se certificar que ela seria atendida por alguém em quem ele provavelmente confiava. Era um grande cara também esse tio Albertino!”

Os textos de Boal são sempre tão atuais e tão presentes. Compartilhamos então, com vocês, a fala que ele preparou para discurso em função da vitória do Lula em sua reeleição, feito no Canecão em 2006. 

No vídeo Augusto Boal proferindo o discurso e abaixo o texto na íntegra:
17 de Outubro, Rio de Janeiro
“Companheiras e Companheiros,

eu quero lembrar àqueles que são da minha idade – e quero revelar aos menorzinhos -, que errar faz muito bem à saúde… desde que se aprenda. Nós aprendemos muito, aprendemos que não podemos continuar errando os mesmos erros que erramos no nosso passado político. Nunca mais os erros de 64: nunca mais a divisão.

Como cada um de nós é uma unicidade, é natural que, mesmo quando pensamos a mesma coisa, pensemos essa mesma coisa de forma diferente. Cada gêmeo, cada família, cada torcedor de um mesmo time, cada membro de uma mesma associação antifascista, cada militante de cada partido político de esquerda, por mais que tenha, com os demais, um sólido denominador comum, pensa de forma diferente a mesma coisa igual. Isso é maravilhoso, é assim que se avança: cotejando opiniões, dialogando entre companheiros, manifestando dúvidas e hesitações. (mais…)

No dia 28 de abril participaremos de um evento na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio): “Encontro com a arte engajada latino-americana: Engajado não é palavrão!”  (https://www.facebook.com/events/413723152386035/) onde serão, ao longo do dia, lidas peças de autores latino-americanos e terão espaços de conversa mediados pela Cecilia Boal.

Dentro da programação, contaremos com a leitura da peça “Ala de Criados” de Mauricio Kartun.

Mauricio Kartun é dramaturgo, diretor e professor de dramaturgia. Seu trabalho é de extrema importância para a dramaturgia argentina contemporânea. Suas obras da década de 1980 Chau Misterix, La Castia de los viejos e Cumbia morena cumbia são reconhecidas pela crítica teatral por trabalhar com o realismo reflexivo e utilizar ricos procedimentos teatrais.

Kartun fez parte do grupo teatral argentino El Machete, que encenou em 1973 na extinta Sala Planeta em Buenos Aires a peça “Ay, Ay! No hay Cristo que aguante, no hay!” adaptação de “Revolução na América do Sul”, com a direção de Augusto Boal.

 

Encontramos recentemente no computador de Boal estes comentários que certamente se referem a algum ensaio das peças de Teatro Fórum.

São conselhos especificamente dirigidos aos curingas: como são chamados os mediadores, os encarregados de organizar as participações do público e de sintetizar e analisar as propostas debatidas na cena.

“Acho que devemos dar muito mais atenção aos seguintes pontos que são fundamentais: 

  1. a proposta deve ser claramente definida: se é Dança do Trabalho deve ser formada por uma seqüência de tarefas repetitivas da profissão; se é a Vida na Comunidade, por um seqüência coerente de ações freqüentes. Quando se misturam propostas o resultado é misturado e, portanto, menos eficaz.

 

  1. os Curingas devem estar atentos para o fato de que os atores sempre podem fazer mais e melhor. A tendência deles, em um primeiro momento, é a de fazer os gestos miúdos, próximos à realidade. Os Curingas devem insistir em que, no palco, esses gestos devem ser ampliados, magnificados E DEVEM TOMAR CONTA DE TODO O CORPOe não apenas dos braços: O CORPO INTEIRO DEVE DANÇAR. Não que o corpo deva o tempo todo entrar em transe, pode ser dança suave, mas tem que ser integral.

 

  1. cada seqüência deve ser explorada com precisão para que se evite a confusão de não sabermos quem está fazendo o quê, e quando. Deve durar o tempo necessário para estimular os espectadores e para que sejam identificados e apreciados.

 

  1. ao usarmos o Espaço devemos usá-lo como um todo: o Espaço tem normalmente quatro ou cinco metros, por quatro ou cinco. Claro que os atores podem, em um determinado momento, ficarem todos em linha reta de frente para o público…  mas esse é um pobre aproveitamento do Espaço. Esses momentos não podem ser majoritários.

 

  1. Quando cada ator faz uma coisa diferente é lógico que se perca muitos detalhes porque não se pode tudo ver ao mesmo tempo. Os Curingas devem alternar: pode todo o elenco fazer a mesma coisa durante um certo tempo; podem-se formar grupos de dois ou de três, e cada grupo fazer uma coisa diferente. O que se perde é quando todo o elenco durante muito tempo faz, cada um, uma coisa diferente. Fazerem todos tudo igual o tempo todo pode ser monótono; fazer cada um a sua coisa, pode ser confuso.

 

  1. os Curingas devem pedir, durante os ensaios, que cada ator faça isoladamente todos os seus movimentos para que os possa observar, e para que os atores tomem consciência de que são importantes para o conjunto. Acontece que alguns atores pensam que, como são muitos em cena, a responsabilidade individual diminui. É exatamente o contrário: aumenta.”

Augusto Boal

 

 

8º Oprima – Encontro do Teatro do Oprimido e Ativismo: Da potência do teatro político na luta contra o fascismo

                   Iniciado há oito anos por iniciativa de coletivos de Teatro do Oprimido de Portugal, que tem por afinidade o trabalho com Teatro do Oprimido como meio de investigação da sociedade, formação, organização e luta, em 2018 foi a primeira vez que o evento foi realizado em uma cidade espanhola.

             Em Madrid funciona, no bairro Lavapiés, a Escola de Artes La Tortuga, em que são ofertados diversas modalidades de cursos, de um amplo leque de linguagens artísticas, sendo o teatro o principal eixo de trabalho. Organizado de forma colaborativa, os anfitriões se encarregam de hospedar as pessoas que vem de Portugal, Espanha e do Brasil em suas casas, e organizam a comida com revezamento de equipes, no La Tortuga, e cada participante colabora com uma taxa de inscrição e outra para bancar os custos da comida durante todos os dias do evento.

          O público do evento é composto pelos integrantes dos grupos de Teatro do Oprimido portugueses e espanhóis, por militantes de movimentos sociais, sindicais e estudantes de artes cênicas interessados em aprofundar suas pesquisas sobre teatro.

            A programação do encontro parte de um método de oficinas e cursos de, no máximo, quatro turnos, em dois dias, para que muitas experiências sejam compartilhadas e que os oficineiros possam também participar como estudantes de outras ações formativas. Para a oitava edição do encontro foram organizadas as seguintes oficinas: Teatro e Sindicalismo, com um grupo de Teatro do Sindicato Anarquista CNT; “No solo duelen los golpes” com a escritora e militante feminista Pamela Palenciano; Dramaturgia Dialética com Sérgio de Carvalho, diretor da Cia do Latão e professor da Universidade de São Paulo; Teatro e Militância, com Rafael Villas Bôas, professor da Universidade de Brasília e coordenador do Coletivo Terra em Cena; Antígona e o Poder, com Deyanira Schurjin, professora da Escola La Tortuga; Dialética do Desejo, com o deputado federal português do Bloco de Esquerda e curinga de Teatro do Oprimido José Soeiro.

                  Além das oficinas, pela parte das noites ocorreram mesas de debates e rodas de conversa sobre os seguintes temas: Teatro do Oprimido e Militância;  Gênero, Migração e Precariedade; e Colonialismo, Racismo, experiências de opressão e resistência. E foram apresentadas as peças “Hotel Exploração” do Coletivo Las Kellys formado por camareiras do setor hoteleiro de Madrid; uma cena de Teatro Fórum do coletivo português Tartaruga Falante, sobre assédio sexual no metrô, a peça do coletivo Trabalho Doméstico do coletivo de trabalhadoras domésticas formado por trabalhadoras migrantes que vivem na Espanha, e foram exibidos em vídeo trechos da peça “Maria 28” do coletivo Peles negras, máscaras negras” formado por filhos de cabo verdianos que vivem na periferia de Lisboa, a capital portuguesa.

            A abertura do encontro foi realizada com uma apresentação e debate sobre a experiência da cultura política de resistência construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no decorrer de seus trinta e quatro anos de existência, feita pelo professor Rafael Villas Bôas, que é também integrante da Brigada Nacional de Teatro do MST, criada a partir de processo formativo que ocorreu entre 2001 e 2005 desenvolvido por Augusto Boal e curingas do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro.

         Do ponto de vista da promoção de espaços de intercâmbio entre diversos segmentos organizados de trabalhadoras e trabalhadores que fazem uso do Teatro do Oprimido como ferramenta de formação, organização social e luta política o evento foi notável. O interesse vívido do encontro pelo entendimento de diversas formas organizativas de segmentos de trabalhadoras, que compreendeu um amplo arco, desde os trabalhadores sem terra brasileiros, até as camareiras do setor hoteleiro e as trabalhadoras domésticas migrantes que vivem em Madrid, fez com que diversos temas como as marcas do processo colonial, da escravidão e do racismo, além das  consequências do sistema patriarcal e do avanço da luta feminista fossem debatidos de maneira articulada e interna aos desafios de cada segmento e país, e não apenas de forma abstrata. Esse ponto de partida objetivo expôs, em diversos momentos, os desafios atuais para a organização da classe trabalhadora, e deixou evidente a dificuldade de organizações partidárias e sindicais para se aproximar de debates como os que foram ali pautados e desenvolvidos em mesas e em processos de oficina teatral.

           A conjuntura marcada pelo retrocesso político em nossos países foi demarcada não apenas nos debates e nas oficinas, apareceu também nas ações de rua que fizemos. Em uma intervenção de Teatro Imagem em que utilizamos a água que corria abaixo da estátua de Tirso de Molina – na praça que leva o mesmo nome em homenagem ao dramaturgo – parte do elenco deitou ao lado da água como se estivesse caída à beira mar, representando corpos de imigrantes mortos nas tentativas de travessia, e passando por cima deles estavam turistas felizes carregando suas malas, se desviando dos cadáveres e da realidade indigesta da desigualdade do capitalismo, em busca do direito ao prazer. Carregavam na testa faixas em que se podia ler “Cruzeiros”. A Europa como continente turístico contraposta à miragem dos migrantes que buscam ali não o prazer e o turismo mas uma alternativa mínima de sobrevivência. Uma imagem simbolicamente forte, que mobilizou o olhar de todos os que passavam pela praça.

           O que não esperávamos eram reações explosivas movidas pelo fascismo e pela xenofobia, contra a cena mas, sobretudo, dirigida à pessoas da oficina que faziam a ressonância invisível conversando com as pessoas que passavam. Uma mulher branca, loira, muito alta e forte, explodiu contra Maria, uma integrante do grupo Madalenas de Sevilha: de que país você é?! Perguntou a mulher, e Maria, que é espanhola de Sevilha, respondeu ser da Argentina. Daí por diante a agressividade aumentou e quase chegou às vias de fato: a mulher, seguida depois por um homem branco alto, que passava com a filha, descontava nos migrantes o sentimento de frustação pela crise social por que passam todos. Como se a culpa fosse dos migrantes, como se fossem invasores do bem estar social europeu a lhes causar dificuldades econômicas e políticas. Ficamos todos bastante impactados ao nos deparar com a veemência do sentimento fascista se manifestando, sem pudor, em praça pública.

Intervenção na Plaza Tirso de Molina

         Porque foi o apoio popular aguerrido e violento como esse que fez com que, na Itália e na Alemanha, surgissem as milícias populares para confrontar “os inimigos do país”. E, como sabemos, no caso alemão, milícias como as freikorps se tornaram posteriormente as temidas SS nazistas quando o nacional-socialismo de Hitler ascendeu ao poder.

       No encontro, portanto, foram debatidos os temas da agenda anti-capitalista de acordo com a maneira como são enfrentados pelos segmentos que estão se organizando para combate-los: os sem terra brasileiros que fazem luta e arte para enfrentar o avanço devastador do agronegócio que conta com toda a força da indústria cultural, as camareiras de Madrid que resistem cotidianamente ao aumento da super-exploração da força de trabalho, manifesto em mais quartos a arrumar, por menos tempo, e com menos mulheres contratadas; as trabalhadoras migrantes domésticas, desamparadas pela lei, submetidas à invisibilidade e precariedade; a luta de todos os não brancos, suspeitos de sempre por conta de suas diferenças, sejam elas étnicas, religiosas, de aparência.

              O interesse vivo pelos contextos de origem e pela força atual das formas do teatro político, pela origem soviética, ou alemã, de estruturas estéticas posteriormente organizadas por Augusto Boal na linguagem do Teatro do Oprimido fez com que o trabalho das oficinas articulassem, sem dicotomias, sem maniqueísmos e preconceitos estabelecidos, o teatro de agitação e propaganda, o teatro épico, o teatro dialético e o teatro do oprimido, de maneira didática e produtiva, facilitando aos participantes tanto a compreensão teórica e histórica quanto o domínio técnico de métodos, de exercícios cênicos e de procedimentos de direção que certamente serão de grande utilidade para todos nós em tempos de acirramento do fascismo em nossos países e de necessidade de fortalecimento da luta anti-capitalista.

           Por fim, cabe ressaltar a semelhança do Centro de Investigação Cultural La Tortuga, em seus objetivos e dinâmica de atuação, com a Rede de Escolas de Teatro e Vídeo Político Popular Nuestra América, que reúne até o momento as Escolas de Teatro Político de Buenos Aires, a Escola de Teatro Popular do Rio de Janeiro, a Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do Distrito Federal, a Escola de Teatro Político de Florianópolis e a Escola de Teatro Político de São Paulo. Os coletivos de teatro político e vídeo popular, articulados aos movimentos sociais de massa, aos sindicatos que não descartaram a formação e a organização popular, e a grupos de pesquisa que atuam sobre a agenda de esquerda nas universidades (luta de classes articulada à luta anti-patriarcal, anti-racista e decolonial) estão à recolocar em pauta iniciativas de articulação mais permanentes do que as tradicionais oficinas episódicas e efêmeras, e a reconstruir – em contexto de retrocesso da democracia liberal burguesa – os termos da práxis leninista, que considerava fortemente as articulações entre arte, política e formação a partir da premissa da agitação e propaganda soviética: informar, formar e organizar.

Rafael Villas Bôas

Professor da UnB, do Coletivo Terra em Cena

e da Escola de Teatro Político e Vídeo Popular do DF

 

Wellington Oliveira

Professor da Secretaria de Educação do DF

Pesquisador do Terra em Cena

e doutorando em Educação Artística pela Universidade do Porto

 

Em seu último ano de vida Boal escreveu este discurso em ocasião do Dia Mundial do Teatro. Pra encerrar essa semana na qual vivemos esta data mais uma vez, compartilhamos um pouco de Boal. Celebrando, também, o fim do mês de seu aniversário. Viva Boal!

Acervo Instituto Algusto Boal

Dia Mundial do Teatro,

27 março, 2009

            Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

            Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confront de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

            Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática: tudo é teatro.

            Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

            Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos vive rem um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e tortutas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa – nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respoeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na últimas fila das galerias.

            Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: – “Agora acabou a ficção que fazemos no dia a dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nennum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.

            Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós contruí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

            Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento – é forma de vida!

            Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”

Augusto Boal, 2009

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, já dizia Che Guevara. (Frase original de Edmund Burke)

Che Guevara era personagem da peça de Boal: “A lua muito pequena e a caminhada perigosa”, uma das peças que compunham a Feira Paulista de Opinião. Nós do Instituto Augusto Boal, que temos em posse documentos importantes relacionados a censura dessa peça nos sentimos então no dever de divulgá-los, para que a história não continue se repetindo. (Lembrando que 50 anos após o assassinato político do estudante secundarista Edson Luís no centro do Rio de Janeiro, vivemos mais um brutal e covarde assassinato político de Marielle Franco, em 2018).

Estes documentos que nos referimos são imagens dos cortes feitos pela censura (84 cortes ao todo!) nos textos da Feira Paulista de Opinião em 1968.

E para abrir esse dossiê, que compartilharemos pouco a pouco, compartilhamos algumas imagens da peça “A lua muito pequena e a caminhada perigosa”, de Augusto Boal, após passar pela Censura Federal.

Vamos conhecer nossa história. Acompanhe nossa página e blog para mais informações sobre a Feira e outras lutas entravadas por Boal na sua trajetória em vida. Ainda temos muito a conhecer e aprender.

 

Ainda no clima do mês do aniversário de Boal, compartilhamos mais um texto, este publicado no livro “O Teatro como arte marcial”, mas também discurso feito na sua festa de aniversário de 70 anos.

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“Fala de aniversário”

“Quando completei 70 anos, 16 de março de 2001, meus companheiros me fizeram uma festa no Teatro Nelson Rodrigues onde estávamos mostrando um Festival de Teatro do Oprimido, e me pediram que falasse alguma coisa. Não me fiz de rogado e falei, mais ou menos assim:

– Concordei com este evento com duas condições imperativas: primeira, a de que só fossem convidados os nossos amigos mais íntimos, e assim foi – só os mais íntimos: vocês, talvez quinhentos, e outras centenas que não puderam vir – só os amigos mais queridos. Sejam bem-vindos.

A segunda condição era a de que vocês teriam que jurar não contar a ninguém que eu tenho setenta anos, porque a imagem que eu fazia, quando jovem, de um setentão, era a de um velhinho sentado em um banco da praia olhando as ondas do mar morrendo na areia, um cigarro escorrendo no canto da boca, bengala na mão direita e cachorro no pé esquerdo. Juro que não uso cachorro, nem bengala.

Tive também duas razões para aceitar a homenagem, uma  honesta e a outra…  vocês dirão.

A razão honesta é que sempre achei que o Centro do Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, esse barco velejado por essas pessoas magníficas que são a Bárbara, Claudete, Helen, Geo e Olivar – os cinco Curingas atuais, mais tantos outros que passaram por aqui, milhares que fizeram conosco um pedaço do caminho – esse Centro merece visibilidade pelo trabalho que faz. Um evento como este informa e divulga. Razão honesta.

A razão duvidosa é que sou invejoso. E o grande culpado é o poeta Ferreira Gullar, querido amigo aqui presente. Por que?

Meses atrás, convidado para a celebração dos setenta anos do Gullar, eu fui, feliz pelo meu amigo e amedrontado, imaginando que aos setenta anos ele já estivesse corcovado e com a voz alquebrada. Quando cheguei à festa, vi um Gullar exuberante e belo, cheio de saúde e alegria, falando do futuro, dos seus planos, da peça que acabara de escrever e que teve a coragem de me convidar para dirigir. Gullar pulverizou a imagem que eu tinha do homem de setenta anos. Não era nada disso!

Eu, que sou movido à inveja, pensei com meus botões: – “Quando eu crescer, vou ter setenta anos como o Gullar e vou inventar alguma coisa nova, não vou ficar dando comida ao gato e milho às pombinhas!”

Fiquei remoendo inveja, esperando o dia em que eu me igualaria ao Gullar, pelo menos na idade, o dia dos meus setenta anos… mas não esperava que esse dia chegasse tão depressa. Foi o desejo mais rápido que já tive satisfeito em minha vida.

Sou movido à inveja e não posso ficar sem sonhar ser o que são os outros e eu ainda não, mas quero ser. Tinha que voltar a procurar alguém que me alimentasse a minha inveja etária.

Dias atrás, ouvi dizer que Oscar Niemeyer descobriu, aos 93 anos, que ainda não sabia tocar violão… Ora veja: não tocava nem violão, nem cavaquinho, nem nada de sopro ou de cordas! O que foi que ele fez diante dessa descoberta?  Contratou um professor e, pelas manhãs, acorda os vizinhos com acordes celestiais.

Minha robusta inveja atacou de novo; convoquei meus botões e disse, rangendo os dentes: – “Grrrrr… Um dia, eu vou ser como o Oscar Niemeyer, vou aprender a solfejar e a cantar afinado, porque o único instrumento que eu aprendi a tocar mais ou menos bem, por enquanto, é botando a boca no trombone, nisso já sou razoável!”

Prometi a mim mesmo e vou, com certeza, aprender a tocar cítara como Ravi Shankar, violoncelo como o Pablo Casals, violino como o Yehudi Menuhin e vou dar saltos mortais como a Madonna, sem perder a nota musical, uma oitava acima: vocês não perdem por esperar.

Já escolhi até a primeira peça do meu repertório: Samba de uma nota só. Começo aprendendo essa nota e depois, com mais vagar e se sobrar tempo, aprendo mais duas ou três… Pra mim, já basta.

Por que quero segredo sobre a minha idade, se já tenho o Gullar e o Niemeyer para me darem inveja e exemplo? Porque acredito que, se vocês não conseguirem esquecer que eu tenho setenta anos… eu vou acabar tendo!

Eu acredito que a gente acaba ficando com a idade que os outros pensam que a gente tem. Primeiro, os outros olham pra nós e só depois a gente assume a cara de velho, as feições e o corpo, o jeito de andar. Por isso, não olhem pra mim desse jeito: pensem nos meus quarenta anos, que foi outro dia.

Pra ilustrar esse justo medo, essa dependência da opinião dos outros, vou contar uma história que me contou um diretor inglês no ano passado: ele estava montando o Rei Lear e convidou um ator excelente para o papel do Rei.

Nos ensaios, Richard – era seu nome –  emocionava até os colegas que, como se sabe, são a platéia mais selvagem que existe. Na cena em que divide o reino com as filhas, Richard estava soberbo. Com voz altissonante e voluptuosa,  gritava:

  • “Goneril, você me ama?”
  • “Meu pai, te amo mais que amo o mar e as montanhas, o sol e as estrelas!”
  • “Ótimo. Assim deve uma filha amar seu pai, principalmente no meu caso. Vais ganhar um terço do meu Reino! E tu, Regan?” – tonitroava, ensurdecedor.
  • “Te amo mais que a minha vida!”
  • “Maravilha! Vais levar o segundo terço do meu Reino. E tu, Cordélia, last but not least, quero que digas algo mais que tuas irmãs, pra não criares um anti-climax.”
  • “Nada” – respondia Cordélia e o elenco estremecia diante daquele ator genial, ódio dinossáurico.
  • “Nada não é nada: fala outra vez!”
  • “Meu pai, eu te amo como uma filha deve amar seu pai, viu?, e quando me casar vou amar também o meu marido, me entende?!”

Até as poltronas ficavam apavoradas e queriam fugir, tropeçavam nos parafusos, arrebentavam pregos e saíam correndo pelas portas, enquanto o rei amaldiçoava Cordélia com voz de trovões e raios em noite de tempestade povoada de ariéis, calibãs e bruxas de Macbeth.

O meu amigo diretor estava tão feliz que resolveu convidar alguns dos seus colegas e amigos mais inamistosos para provocar sua inveja e ciúme. Antes do ensaio geral, o diretor foi avisar ao elenco da presença dessa gente ilustre. Agradeceu a todos, especialmente a Richard pela sua estupenda interpretação. Modesto, Richard respondeu:

  • “Nada disso… você é que é um excelente diretor… você me ensinou quase tudo que sei sobre aquela sétima cena do terceiro ato… Aquela sétima cena e não teria feito sem você… Mas o meu personagem ainda não está completo, faltam retoques, quem sabe você pode me ajudar mais uma vez. Por exemplo, eu nem sei a idade do Rei…”

O diretor respondeu que achava que Lear poderia ter uns 70 anos e Richard ficou deslumbrado com a descoberta:

  • “Está vendo? Isso vai me ajudar a completar o personagem, porque a idade é muito importante. Você é um excelente diretor! Hoje, Lear vai sair melhor do que nunca. Setenta anos, sim senhor. Que bela idade. Velhice!”

Começou o ensaio, maravilhoso como sempre, até que entrou Lear apoiado em uma bengala: surpresa! O diretor estremeceu pensando que talvez Richard tivesse torcido o pé descendo alguma escada, como Orson Welles que levou um tombo no dia da estréia e interpretou Lear sentado em uma cadeira de rodas, sem motor, é claro, para maior verossimilhança histórica.

Richard declamou seu texto, com voz rouca e fanha:

  • “Goneril, você gosta de mim?”
  • “Ih, paizinho, faz isso comigo não: eu te amo mais do que amos rios e montanhas, o céu e o mar…” – disse a filha, espantada diante da voz e da bengala.
  • “Leva um terço do meu Reino e vai embora. Você, Regan, agora é a tua vez: fala alto, que eu estou ficando surdo, é a idade.”
  • “Paizinho, pelo amor de Deus, pára com isso: eu te amo mais do que amo a tua vida…” – chorou Regan atordoada.
  • “Leva outro terço. E você, caçulinha, aproveita, é a tua vez, Cordélia?”
  • “Nada.”

Lear tropeçou de ódio, estertorou-se no chão, epiléptico, com sua voz estraçalhada amortalhando a poesia shakespereana.

O diretor levantou-se, como diria o Nelson, babando de ódio, mandou baixar o pano e explodiu:

  • “Você ficou louco? Você está destruindo o meu espetáculo!”
  • “Estou dando o fino acabamento. Lear tem setenta anos – isso é fundamental para a sua caracterização psicológica e física. Um velho de setenta anos anda encurvado e fala quase sem voz… assim… eeeehhhh…” – disse o ator, com a voz fanha do personagem que estava agora, segundo ele, bem acabado.

Vencido, o diretor ainda teve forças pra perguntar: – “E você, Richard,  que idade você tem?”

  • “Eu? Eu já completei setenta anos bem vividos!” – falou jubiloso, alto e bom som, esquecendo-se da sua própria idade, esquecendo sua pretensa velhice.

Para terminar, quero dizer que existe uma terceira razão pela qual eu aceitei esta homenagem: em 2001, são muitos os aniversários redondos que estamos comemoramos. Dez anos em que a atual equipe do CTO-Rio trabalha comigo;  15 do Centro do Teatro do Oprimido do Rio de janeiro; 20 desde que a Cecília e eu começamos a pesquisar o Arco-Íris do Desejo, quando ainda estávamos exilados na França; 30 do começo do Teatro do Oprimido, que nasceu em São Paulo; 45 da minha estréia como diretor no  Teatro do Arena; 70 anos da minha curta vida – não contem a ninguém –  e, last but not least, 35 anos que eu e a Cecília  resolvemos nos casar.

Cecília, este aniversário também é teu e esta festa é tua.”

Augusto Boal

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