Teve início no sábado, 21 de março, no Projeto Habitacional Mãe Bernadete, a nova turma da Formação de Formadores, iniciativa que reúne participantes interessados em desenvolver o teatro popular como prática artística e ferramenta de atuação crítica nos territórios. O primeiro encontro marcou o começo de um percurso formativo voltado à preparação de multiplicadores, capazes de expandir o acesso à linguagem teatral e fortalecer redes de criação e reflexão coletiva.
É justamente nesse gesto inicial que reside a sua força: formar pessoas capazes de multiplicar conhecimento, linguagem e pensamento crítico em diferentes territórios. A formação de multiplicadores não é uma etapa secundária: é estratégia central. Em um cenário marcado por disputas de narrativa, acesso desigual à cultura e tensionamentos políticos, preparar quem vai levar o teatro adiante é também uma forma de garantir continuidade, presença e transformação.
O primeiro dia foi atravessado por jogos, brincadeiras e dinâmicas coletivas que, para além do aquecimento corporal, funcionaram como dispositivos de reflexão. Entre exercícios e rodas de conversa, os participantes foram provocados a pensar as relações entre forma e conteúdo no teatro popular. Não apenas o que se diz, mas como se diz, para quem e com qual intenção.
Divididos em grupos, começaram a experimentar a construção de cenas a partir de temas ligados à conjuntura atual. As propostas trouxeram à tona questões relacionadas a diferentes formas de opressão, evidenciando o teatro como espaço de elaboração crítica e criação coletiva.
As expectativas dos participantes já apontam para o entendimento do teatro como ferramenta de ação no mundo. Pedro, estudante de Ciências Sociais, compartilhou que “espera do curso que a gente consiga desenvolver um teatro que seja mais político, que funcione como uma ferramenta da revolução”.
Já Eduarda Moura, professora, destaca a dimensão prática e transformadora da formação: “Espero que a gente consiga tocar e aprender técnicas de como a arte pode servir ao povo. Que possa servir como uma ferramenta de luta e de libertação. Que a gente acorde para as opressões que a gente sofre e que, mais para frente, consiga estar mais equipada para levar esse conteúdo também para os meus alunos”.
Ao articular prática artística, reflexão política e construção coletiva, a formação reafirma o teatro popular como linguagem que não se encerra no palco. Ele se desdobra em processos, atravessa corpos e ganha potência quando compartilhado.
Mais do que o início de um curso, este primeiro dia marca o fortalecimento de uma rede em construção — formada por pessoas que não apenas aprendem, mas que se preparam para ensinar, transformar e multiplicar.
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O Núcleo Feminista da Escola de Teatro Popular (ETP) levou arte e política para as ruas do Rio de Janeiro na abertura do ato do 8 de março, o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. A intervenção cênica foi construída coletivamente pelo núcleo feminista, envolvendo integrantes de toda a escola e em articulação com o Movimento Unificado dos Camelôs (MUCA), trazendo para o centro da cena as lutas das mulheres trabalhadoras da cidade.
Foto de @oliveiraourodrigues
Apresentada logo no início da manifestação, a cena utilizou elementos do teatro popular e da intervenção de rua para retratar o cotidiano de uma camelô mulher negra, representada por uma boneca gigante. A personagem sintetizava a realidade de milhares de mulheres que enfrentam diariamente a sobrecarga do trabalho e da sobrevivência: cuidar da casa, dos filhos, pagar contas, cozinhar e, ao mesmo tempo, garantir o sustento vendendo suas mercadorias nas ruas da cidade.
foto de @lechuphotos
Enquanto a personagem atravessa essas múltiplas tarefas, surge na cena a polícia que faz o “rapa”, figura caracterizada como um porco. Entra em cena a repressão da guarda municipal contra trabalhadores ambulantes, política que se intensificou na gestão do prefeito Eduardo Paes e que atinge diretamente camelôs e, em especial, as mulheres que vivem desse trabalho nas ruas da cidade. A presença desse personagem evidencia a violência cotidiana sofrida por quem luta para garantir o sustento de sua família, ao mesmo tempo em que levanta uma pergunta central: como essa mulher pode se organizar e lutar diante da sobrecarga do trabalho, da precarização da vida e da repressão do poder público?
A resposta surge na própria cena. À medida que a personagem enfrenta a repressão, mulheres e integrantes organizados da ETP se aproximam, formando um coletivo que se coloca ao lado dela. Juntas, colocam a repressão para correr, afirmando na prática que a organização coletiva é o caminho para enfrentar as injustiças. O momento final é marcado pelo coro cantando a música “Povoada”, encerrando a intervenção com a força da coletividade.
Para Maria dos Camelôs, liderança do MUCA, a apresentação foi um momento de emoção e afirmação política: “A gente apresentou uma cena maravilhosa que me deixou emocionada aqui com a ETP. Uma cena falando das camelôs da cidade e a gente precisa reafirmar que camelô é trabalhador e que a gente vai ocupar esses espaços sim para levar sustento para nossa casa, pra organizar nossa família e para ter dignidade. O MUCA e a ETP estão juntos para colocar as mulheres na luta”.
A construção da intervenção também expressa a perspectiva política que orienta o trabalho do Núcleo Feminista da ETP. Segundo Amanda Nolasco, integrante da escola: “estivemos presentes no ato do 8 de março, e a ETP e o MUCA se propõem a pensar e construir um feminismo que seja anticapitalista, um feminismo que não esteja disposto a conciliar a vida e a dignidade da classe trabalhadora”.
A participação no ato reforça a proposta da Escola de Teatro Popular de colocar o teatro a serviço das lutas sociais, transformando a arte em instrumento de organização, denúncia e mobilização. A intervenção mostrou que o teatro pode ocupar as ruas para afirmar a dignidade do trabalho popular e fortalecer a luta das mulheres trabalhadoras.
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Após uma trajetória intensa ao longo de 2025, marcada pela consolidação da Formação de Multiplicadores e pelo aprofundamento nas linguagens do teatro político, o Projeto Poéticas Populares dá mais um passo no fortalecimento de seu projeto formativo. Na última quinta-feira (12), teve início o novo Grupo de Estudos em prática e teoria do Teatro do Oprimido, espaço que dará sustentação à próxima edição do Curso de Formação de Formadores, com início em 21 de março.
A experiência acumulada na formação de 2025 reafirmou a necessidade de estudar de forma sistemática a teoria e a prática do teatro político, especialmente o Teatro do Oprimido, desenvolvido por Augusto Boal, e o diálogo com outras matrizes críticas, como o Teatro Épico. Em um contexto em que as opressões atravessam o cotidiano, é urgente construir ferramentas estéticas e políticas capazes de revelar os mecanismos estruturais da exploração e estimular a organização coletiva. A nova etapa da formação nasce desse entendimento: é preciso formar multiplicadores capazes de atuar artisticamente e politicamente em seus territórios.
O Grupo de Estudos, composto por formadores da última turma, garante continuidade ao processo formativo e aprofunda o acúmulo coletivo do projeto. O espaço busca sistematizar teoria, compartilhar práticas e fortalecer a preparação da nova turma, ampliando o repertório político-pedagógico e consolidando um campo crítico de reflexão sobre teatro e sociedade.
Curso de Formação de Formadores – 2026
A nova edição do curso terá início em 21 de março e contará com 12 encontros presenciais aos sábados, das 14h às 18h, com término previsto para 20 de junho. Os encontros acontecerão na Rua da Constituição, 38 – no Projeto Habitacional Mãe Bernadete Pacífico.
A formação é destinada a jovens e adultos a partir de 18 anos interessados em teatro e política no campo crítico. São 60 vagas, e o objetivo central é trazer novos militantes para a formação da ETP, além de reforçar o espaço de formação permanente dos monitores e membros da escola.
O curso abordará fundamentos do teatro político, com ênfase no Teatro do Oprimido e em suas possibilidades pedagógicas e organizativas, preparando participantes para atuarem como multiplicadores em escolas, movimentos sociais, coletivos culturais e territórios populares. Não é exigida experiência prévia em teatro.
Em um momento histórico em que as desigualdades se aprofundam e as formas de opressão se sofisticam, formar novos multiplicadores do Teatro do Oprimido é também fortalecer a capacidade coletiva de ler criticamente a realidade e transformá-la.
Divulgação
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Nos dias 21 e 22 de fevereiro, o auditório do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro se transformou em picadeiro, sala de ensaio e espaço de construção coletiva. A Trupe Lona Preta conduziu uma imersão com a Escola de Teatro Popular (ETP), aprofundando ferramentas de palhaçaria, construção dramatúrgica e crítica social a partir de uma perspectiva de teatro popular.
Logo na apresentação, Sérgio Carozzi e Joel Carozzi retomaram um gesto que atravessa a trajetória do grupo: pedir que cada participante se apresentasse dizendo a profissão dos pais. A estratégia, aparentemente simples, revela um posicionamento estético e político. Como afirmaram, trata-se de “descobrir” que fazem teatro de e para a classe trabalhadora.
“Nosso grupo desenvolve um trabalho há 20 anos na periferia de São Paulo. A gente começou uma pesquisa de palhaço, de palhaçada, e foi atrelando essa pesquisa com a crítica social e com a linguagem da música”, explicou Joel Carozzi. Ao longo dessas duas décadas, a trupe consolidou um repertório de sete espetáculos e um conjunto de ferramentas que definem como teatro popular: “um teatro que cabe em vários espaços, pensado na periferia, para a periferia”, complementa.
Corpo de trabalho, não dom
A primeira parte da oficina mergulhou na dimensão física da cena. O ponto de partida não foi o talento nem o dom, mas o trabalho. “A gente parte dessa construção do elementar: do corpo, que é um corpo de trabalho, tentando desconstruir a ideia de talento e construir a ideia de trabalho físico”, destaca Joel.
Os exercícios conduziram os participantes à experiência do extra cotidiano, um estado em que o corpo sai dos automatismos do dia a dia e passa a agir a partir de outras dinâmicas. A proposta era abandonar gestos habituais e investigar novas qualidades de movimento. Com muito entusiasmo, a integrante do Núcleo Centro da ETP, Marisa Brandão destacou o impacto desse processo. Para ela, “tirar o corpo do cotidiano é lembrar das capacidades do corpo e da mente humana, que a repetição do dia a dia nos limita”.
Na exploração dos elementos da natureza, os participantes investigaram diferentes qualidades de movimento para deslocar o corpo do lugar cotidiano: a fluidez e adaptação da água, a expansão e a força variável do ar e as intensidades do fogo, da chama contida à explosão. Cada elemento propunha uma dinâmica específica de energia, ritmo e presença, ampliando as possibilidades expressivas do corpo em cena.
As imagens evocadas são radicalmente cotidianas. Ao invés de referências abstratas, os oficineiros trabalham com experiências comuns, acessíveis. Essa escolha aproxima a prática da vida concreta e evidencia diferenças de repertório entre contextos sociais distintos sem hierarquizar saberes, mas evidenciando que o teatro popular parte do chão.
O desdobramento do exercício levou à combinação entre elementos e profissões escolhidas pelo grupo — “um feirante de fogo”, “uma freira de água” — explorando volumes, intensidades e comportamentos corporais. Um jogo para deslocar o corpo do lugar habitual e abrir caminho para a composição cômica.
Ferramentas do riso e decisão em cena
A palhaçaria apareceu não como improviso descontrolado, mas como estrutura e ferramenta. Nem tudo é improviso. Nem tudo é técnica. É preciso provocar: que temas queremos colocar em cena?
No clássico jogo da corda, a tarefa era entrar e sair no ritmo, enfrentar a cena com decisão. Muitas vezes colocamos muita coisa entre nós e a cena, esse foi o convite à reflexão durante a oficina. A ansiedade de acertar pode bloquear o estar presente, mesmo que seja apenas nos segundos entre o bater da corda.
Para a trupe, o riso é construção. “A gente trabalha com a ideia de ferramentas. Ferramentas do riso. Quais procedimentos favorecem ou não a construção de uma piada?”, complementa Sérgio Carozzi. A comicidade é resultado de escolhas precisas, de ritmo, de relação.
Encontro de identidades
Para além das técnicas, o encontro revelou afinidades políticas e estéticas. “A gente achou muito massa a recepção da galera animada, em pleno carnaval, comprometida com o trabalho de criar cenas, dialogar com os territórios e com a arte popular. A arte que é feita nos espaços públicos, espaços de luta”, disseram. E completaram os irmãos: “A gente se sente parte de um processo maior do que o nosso. Já tem gente pensando nisso. Ficamos felizes de contribuir e aprender muito com essa troca.”
A oficina terminou, mas deixou aberta a possibilidade de continuidade. Uma circulação de espetáculos, visitas entre Rio e São Paulo, fortalecimento de redes. Um teatro que se faz em diálogo com territórios, com espaços públicos, com a luta.
Entre água, ar e fogo; entre cordas, escadas e tanques de palhaço, a oficina reafirmou um princípio caro tanto à Trupe Lona Preta quanto à ETP: o teatro é trabalho, é ferramenta e é escolha. Escolha de classe, de linguagem e de público.
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O Núcleo Feminista da Escola de Teatro Popular (ETP) inicia seu calendário de atividades com um encontro voltado à construção de uma intervenção artística e política para o 8 de março – Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. O primeiro encontro acontece na terça-feira (3), às 18h30, no MUCA RJ (Rua Riachuelo, 48 – Lapa), e é aberto a mulheres e pessoas não binárias da classe trabalhadora interessadas em participar do processo criativo que levará a ETP para as ruas no ato do 8M. Os encontros acontecem todas às terças-feiras, no mesmo horário e local.
A proposta é reunir participantes para a criação coletiva de uma intervenção teatral que dialogue com as pautas feministas e as lutas sociais do presente. Não é necessário ter experiência prévia com teatro: basta o interesse em fortalecer o feminismo e o teatro popular por meio da organização coletiva e da ação política. Informações e inscrições podem ser feitas pelo e-mail amandanolascoetp@gmail.com.
Neste ano, o ato do 8 de março acontecerá no próprio domingo (8), em Copacabana, com concentração às 10h, no Posto 3, reunindo movimentos, coletivos e organizações de mulheres de toda a cidade.
O 8 de março é uma data histórica de mobilização das mulheres trabalhadoras em todo o mundo. Mais do que uma comemoração, o dia marca a luta por direitos, melhores condições de trabalho, igualdade salarial e o fim das violências e opressões estruturais. No campo da cultura, as mulheres seguem enfrentando precarização, invisibilidade, falta de financiamento e jornadas exaustivas.
Entre as pautas centrais das mobilizações deste ano estão a valorização do trabalho cultural, a garantia de direitos trabalhistas e a luta pelo fim da escala 6×1, que afeta de forma direta a vida das mulheres da classe trabalhadora. A intervenção em construção pelo Núcleo Feminista busca dialogar com essas reivindicações e denunciar as opressões impostas pelo sistema capitalista.
O Núcleo Feminista da ETP é um espaço de troca, formação e criação artística comprometido com as pautas das mulheres trabalhadoras. A cada encontro, o grupo constrói cenas, experimenta linguagens e desenvolve ações que dialogam com a realidade social, fortalecendo o teatro popular como ferramenta de expressão política e transformação coletiva.
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Nos dias 24 e 25 de janeiro, o Projeto Poéticas Populares realizou uma intensa oficina com a Trupe Lona Preta, grupo sediado no Jardim Guaraú, na periferia da Zona Oeste de São Paulo, reconhecido nacionalmente por unir a tradição da palhaçaria clássica à crítica social e ao teatro político. Durante dois dias de imersão, monitores e alunos dos núcleos participaram de atividades práticas e reflexões sobre o riso como ferramenta de resistência e transformação.
Com mais de 20 anos de trajetória, a Trupe compartilhou exercícios, jogos e técnicas que exploram o corpo cômico, o timing da cena e a construção de personagens, sempre conectando a linguagem da palhaçaria com temas sociais e políticos. A proposta central foi trabalhar o chamado “riso subversivo”, que utiliza o humor para provocar reflexão, questionar estruturas de poder e dialogar com o público de forma direta.
A oficina reuniu participantes de diferentes núcleos, criando um espaço de troca entre artistas em formação e o grupo convidado. Ao longo das atividades, os integrantes da Trupe também compartilharam relatos de suas experiências em apresentações de rua, intervenções políticas e processos criativos coletivos. É reafirmar uma escolha estética e política que coloca o riso, o jogo e a linguagem popular como ferramentas de resistência.
A atividade integra o calendário de formação e reforça o compromisso do projeto com práticas artísticas que dialogam com a realidade social e fortalecem o teatro popular como instrumento de transformação. A passagem da Trupe Lona Preta no Rio de Janeiro deixa como legado novas ferramentas criativas, além de inspiração para que os participantes sigam explorando o humor como linguagem crítica e engajada.
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Realizado ao longo de um dia inteiro de encontros, reflexões e apresentações cênicas, o 4º Festival Augusto Boal marcou a celebração dos 50 anos do Teatro do Oprimido, reafirmando a atualidade do legado de Augusto Boal e a força do teatro como ferramenta de análise crítica, organização coletiva e transformação social. O festival foi realizado pela Escola de Teatro Popular (ETP), reunindo estudantes, artistas, educadores e militantes de diferentes territórios do estado do Rio de Janeiro.
A programação teve início pela manhã com um café coletivo, criando um espaço de acolhimento e troca entre os participantes. Em seguida, o festival abriu seus trabalhos com uma análise de conjuntura conduzida pelo deputado federal Tarcísio Motta, reforçando a dimensão política do encontro e o compromisso do Teatro do Oprimido com a leitura crítica da realidade brasileira.
No período da tarde, o festival deu início às atividades abertas ao público. Um dos destaques foi a mesa de debate com Cecília Boal e Silvia Vianna, que propôs reflexões sobre o teatro político, os desafios contemporâneos da cultura e a permanência do pensamento de Augusto Boal como ferramenta viva de intervenção social. O encontro reafirmou o Teatro do Oprimido não como uma técnica encerrada no passado, mas como uma prática em constante atualização.
A partir do fim da tarde, o festival se transformou em cena. Núcleos de diferentes regiões apresentaram criações que dialogam diretamente com os princípios do Teatro do Oprimido, abordando temas como trabalho, exploração, luta popular, organização coletiva e resistência. Entre as apresentações estiveram releituras e criações como Eles Não Usam Black-Tie, A Mais-Valia vai acabar, seu Edgar!, Zumbi, Revolução e Feira, apresentadas por núcleos da Maré, Niterói, Centro, São Gonçalo e outros territórios.
Encerrando o dia, a quarta edição do festival reuniu participantes e organizadores em um momento de síntese e celebração, reafirmando o compromisso da Escola de Teatro Popular e do Instituto Augusto Boal com a formação política, a produção cultural popular e a continuidade do Teatro do Oprimido como prática coletiva, crítica e transformadora.
Mais do que um evento comemorativo, o 4º Festival Augusto Boal se consolidou como um espaço de encontro entre passado, presente e futuro, celebrando cinco décadas de uma metodologia que segue viva nos corpos, nas cenas e nas lutas do povo.
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Realizado em 13 de dezembro, no Sindicato dos Comerciários, no Rio de Janeiro, o 4º Festival Augusto Boal marcou as celebrações pelos 50 anos do Teatro do Oprimido com uma programação que reuniu formação política, debate e apresentações cênicas, reafirmando o teatro como instrumento de análise crítica da realidade e de mobilização coletiva. O festival reuniu grupos e estudantes de diferentes territórios do estado, fortalecendo o encontro entre memória, criação e ação política.
Um dos eixos centrais do festival foi o trabalho dramatúrgico desenvolvido a partir de textos fundamentais da dramaturgia brasileira produzida entre as décadas de 1950 e 1970, período marcado pela consolidação de um teatro crítico, popular e profundamente conectado às lutas sociais. Obras e fragmentos inspirados em autores e montagens emblemáticas desse período deram origem a cenas que abordaram temas como exploração do trabalho, desigualdade social, organização coletiva e resistência popular.
As apresentações foram estruturadas em dois momentos complementares. No primeiro, os grupos apresentaram cenas diretamente inspiradas no teatro político brasileiro dos anos 50 a 70, recuperando personagens, conflitos e estruturas dramáticas que ajudaram a formar gerações de artistas e militantes. Peças como Eles Não Usam Black-Tie, A Mais-Valia vai acabar, seu Edgar!, Zumbi, Revolução e Feira ganharam novas leituras a partir das experiências dos territórios e dos coletivos envolvidos, reafirmando a atualidade dessas dramaturgias.
No segundo momento, as cenas dialogaram com o Teatro Jornal, uma das técnicas centrais do Teatro do Oprimido, trazendo para o palco situações diretamente relacionadas à conjuntura política e social atual. A partir de notícias, fatos recentes e vivências concretas, os grupos construíram cenas que tensionaram o presente, conectando passado e atualidade, história e urgência. Essa passagem entre épocas evidenciou como o método criado por Augusto Boal permanece vivo e capaz de se reinventar frente aos desafios contemporâneos.
Ao reunir dramaturgia clássica brasileira e técnicas do Teatro Jornal, o 4º Festival Augusto Boal mostrou que o teatro político não é apenas memória, mas prática em movimento. As cenas apresentadas reforçaram o compromisso do projeto Poéticas Políticas do Instituto Augusto Boal com um teatro popular, crítico e profundamente enraizado na realidade social.
________________________ O IV Festival Augusto Boal fez parte do projeto “Poéticas Populares” com patrocínio da Funarte, através da emenda 972588
No último final de semana de novembro, recebemos Helena Albergaria e Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão, para a realização de uma oficina voltada à prática teatral, à reflexão crítica e à criação coletiva. A atividade reuniu participantes interessados em aprofundar experiências de um teatro politizado, comprometido com a leitura crítica da realidade e com o trabalho coletivo como prática de transformação.
Durante os dois dias de oficina, Helena e Sérgio compartilharam princípios e métodos desenvolvidos ao longo da trajetória da Companhia do Latão, tomando como referência os textos de Bertolt Brecht, e dialogando diretamente com fundamentos do teatro dialético. A proposta esteve ancorada na experimentação prática e no debate, entendendo a politização não como transmissão de discursos, mas como exercício ativo de pensamento, escuta e ação comum.
“A gente esteve aqui dando uma oficina, usando o texto A Exceção e a Regra do Brecht e tentando compartilhar, muito sinceramente, como a gente trabalha no Latão: amando a incerteza, respeitando os pontos de vista diferentes das pessoas sobre o debate e tentando ter alegria e prazer no trabalho”, destacou Helena Albergaria.
Para os artistas, o encontro no Rio de Janeiro se insere em uma trajetória de afinidades construídas no campo de um teatro engajado, mobilizador e atento às contradições do presente.
Teatro do Oprimido como prática viva e instrumento de resistência
Ao longo do encontro, a relação com o Teatro do Oprimido e com o legado de Augusto Boal esteve presente de forma transversal, tanto nas reflexões metodológicas quanto nos relatos pessoais dos artistas.
Helena Albergaria compartilhou sua trajetória de aproximação com o Teatro do Oprimido desde a adolescência, passando pela formação teatral e pela militância artística, ressaltando o papel central dessas práticas nos territórios de resistência cultural do país.
“Em todos os pontos de resistência cultural que a gente visitava pelo Brasil, o Teatro do Oprimido estava. Estava Brecht, estava Stanislavski. São instrumentos fundamentais para lidar com a complexidade da nossa vida num país tão violento e tão injusto”, afirmou.
Para ela, o Teatro do Oprimido segue sendo uma ferramenta potente de enfrentamento às múltiplas formas de violência e desigualdade no Brasil.
“Parabenizar o Teatro do Oprimido pelo trabalho no Brasil todo, porque são instrumentos de resistência. Isso é muito importante mesmo. Em São Paulo, eu acho que o teatro do oprimido e os Racionais são uma força muito importante de resistência e saudar esses grandes autores, esses grandes pensadores.”, reforçou Helena.
Sérgio de Carvalho também destacou a importância da obra de Augusto Boal em sua formação e no desenvolvimento de um teatro comprometido com a transformação social. Ao revisitar o livro Teatro do Oprimido, ele reconhece a dimensão histórica e, ao mesmo tempo, profundamente atual da proposta de Boal.
“O livro Teatro do Oprimido me parece uma obra fundamental da história das artes cênicas no Brasil e no mundo. É uma das últimas grandes teorias do século XX. E não só uma teoria, mas uma prática, uma grande prática teorizante”, afirmou.
Para Sérgio, a centralidade do Teatro do Oprimido está justamente na democratização dos meios de produção teatral, colocando o teatro a serviço da ação política coletiva.
“É a transferência dos meios de produção para qualquer pessoa usar o teatro como uma ferramenta de politização e de transformação.”, destacou Sérgio.
A oficina com a Companhia do Latão reafirma o Projeto Poéticas Populares como espaço de encontro entre diferentes tradições do teatro crítico brasileiro, fortalecendo vínculos históricos e contemporâneos com o legado de Augusto Boal. Mais do que uma atividade pontual, o encontro se inscreve em um campo comum de práticas que entendem o teatro como instrumento de leitura do mundo, ação coletiva e transformação social. ______________ O projeto “Poéticas Populares” conta com patrocínio da Funarte, através da emenda 972588
No dia 3 de novembro, a Escola de Teatro Popular (ETP) realizou uma apresentação no Colégio Estadual João Alfredo, em Vila Isabel. A atividade integrou ações da ETP junto à rede pública de ensino e reafirma o compromisso do projeto com o diálogo direto entre teatro, educação e realidade social.
A apresentação contou com cenas do Anjo do Imperialismo, da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, e a da professora exaurida, que provocaram forte identificação entre estudantes e educadores presentes. O encontro foi marcado também por uma homenagem ao professor Toinho, militante histórico do SEPE, falecido na semana anterior, reconhecendo sua trajetória de luta em defesa da educação pública e dos direitos dos trabalhadores da educação.
Após a apresentação, foi realizado um debate com estudantes do primeiro e do segundo ano do ensino médio, criando um espaço de escuta, troca e reflexão coletiva. As cenas abriram caminho para discussões sobre as condições de trabalho nas escolas, o cotidiano dos professores e os desafios enfrentados pela educação pública no Brasil.
Levar o teatro para dentro da escola pública e colocar em cena as questões políticas que atravessam o trabalho docente é parte central da atuação da ETP. Ao abordar temas como sobrecarga, precarização, resistência e compromisso pedagógico, a experiência teatral se afirma como ferramenta de leitura crítica da realidade e de estímulo à participação dos estudantes no debate sobre seus próprios territórios e vivências.
A apresentação no Colégio Estadual João Alfredo reforça o teatro como prática pedagógica, política e coletiva, capaz de produzir encontros sensíveis e mobilizar reflexões urgentes sobre a educação pública e o papel do professor em um país marcado por desigualdades estruturais.
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