Augusto Boal

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“Arena conta Zumbi” foi encenado pela primeira vez em 1965. Escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo, direção de Augusto Boal e direção musical de Carlos Castilho, estreou no Teatro de Arena de São Paulo em 1º de maio de 1965.
Em “Hamlet e o filho do padeiro”, Augusto Boal fala sobre “Arena conta Zumbi”:
“Em Zumbi, outra vez, a metáfora. Usamos a República Negra formada por escravos que se libertavam – os capturados ainda escravos, escravos permaneciam em Palmares, que ocupava superfície maior que a Península Ibérica. Palmares se desenvolveu por um século no nordeste do país até ser destruído por uma coligação de portugueses e holandeses, quando o seu poder comercial ameaçava a hegemonia branca. Palmares resistiu até o último homem. Numância.
Queríamos resistir.
O texto usava jornais. Um discurso do comandante analfabeto, Don Ayres, destruidor de Palmares, foi copiado ipsis litteris do ditador Castelo Branco falando ao Terceiro Exército: nosso exército se converteria em gigantesca política, o verdadeiro inimigo (nós!) estando dentro e não fora das nossas fronteiras.”

Reprodução acervo Instituto Algusto Boal

Na foto: Marília Medalha, Anthero de Oliveira, Chant Dessian, Vanya Sant’Anna, Gianfrancesco Guarnieri, Dina Sfat e Lima Duarte (de costas) em cena de “Arena conta Zumbi” no Teatro de Arena de São Paulo, 1965. Foto de Derly Marques disponível em nosso acervo online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

 

No início de sua carreira, Augusto Boal participou como dramaturgo do Teatro Experimental do Negro (TEN).
Sua peça “O logro” foi encenada pelo diretor Geraldo Campos de Oliveira em 1953 e “Laio se matou”, também de sua autoria, foi encenada em 1958 com a direção de Raul Martins.

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Recorte de jornal disponível em: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

A peça “Torquemeda”, escrita por Augusto Boal durante a prisão durante da Ditadura Militar brasileira, foi também encenada na Universidad Central de Venezuela pelo diretor Herman Lejter em 1973.
A peça foi montada com direção de Augusto Boal pela primeira vez em 1971 na Feira Latino-americana de Opinião. Como relatava as violências sofridas dentro do cárcere durante a ditadura militar no Brasil, o governo brasileiro tentou impedir que a peça fosse encenada em outras partes do mundo. Como reação, diversos diretores latino-americanos fizeram apresentações da peça em seus países. É o caso da montagem universitária na Venezuela, assim como no Peru e na Colombia.

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Registro de encenação de “Torquemada” na Universidad Central de Venezuela, em Caracas, 1973. Imagem disponível em nosso banco de dados online:  http://www.acervoaugustoboal.com.br/i


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Capa do programa da peça.


 

Acontece amanhã no Centro Cultural Paco Urondo em Buenos Aires uma conversa com pesquisadores de Teatro do Oprimido e Teatro Épico para discutir e problematizar a ideia de espectador em ambas poéticas. Participarão: Julieta Grinspan, Carlos Fos, Cora Fairstein, Sabino Molina, Andres Lopez Garraza.
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Em 1972 Augusto Boal dirige na St Clemment´s Church em Nova York, a Feira Latino-americana de Opinião, produzida pelo TOLA (Theatre of Latin America) e baseada na Feira Paulista de Opinião criada pelo Teatro de Arena em 1968.
Objetivo principal das Feiras organizadas por Boal era que se reunissem vários pensadores de esquerda para que juntos elaborassem saídas para as situações de repressão vividas pelos países da América Latina.
A peça “Animalia”, escrita e dirigida por Gianfrancesco Guarnieri, foi apresentada em ambas as Feiras. O tema principal da narrativa é a influência dos meios de comunicação e como a indústria cultural colabora com a alienação de massas. São representados diferentes grupos sociais e fica evidente a fragmentação da esquerda no Brasil durante a ditadura militar. Guarnieri utiliza a metáfora e a alegoria, recursos que serão largamente explorados em sua trajetória como dramaturgo.

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Atores em cena de “Animalia” na Primeira Feira Paulista de Opinião (1968). Foto de Derly Marques disponível em nosso Banco de Dados online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/


Renato Consorte, que ontem completaria 93 anos, atuou na apresentação de “Animália”, na Primeira Feira Paulista de Opinião. Consorte iniciou sua trajetória com o Teatro de Arena no espetáculo “Arena conta Tiradentes” e em seguida, atuou em diversos trabalhos do grupo, sendo um importante integrante.
Acervo Instituto Algusto Boal

Renato Consorte em cena de “Animalia” (1968). Foto de Derly Marques disponível em nosso Banco de Dados online: http://www.acervoaugustoboal.com.br/


 
 
 
 
 

Em 2016, participei da montagem, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, da exposição Meus caros amigos – Augusto Boal – Cartas do exílio,[1] que pretendia divulgar a atividade incansável do dramaturgo no período em que fora obrigado a viver fora do Brasil pelo regime imposto por um golpe militar – ameaça que, com profunda consternação, ronda mais uma vez o país. A seleção do material que integraria a exposição, feita na casa de Cecilia, diretora do Instituto Augusto Boal, foi realmente desafiadora, dada a quantidade e qualidade dos documentos que compõem o Acervo do IAB e o espaço restrito da Pequena Galeria do IMS/RJ.

Foram dias de reunião, leituras e conversas, fotos e datas, cartas e cafés, e o mar a invadir a sala, muita luz, vozes na praia e música ao cair da tarde. Em uma dessas tardes, descobrimos um delicioso bilhete do Boal para Cecilia, bilhete sobre o qual nunca escrevi, embora fosse meu preferido. Simples, curto, forte porque simples e curto, tanto em tão poucas linhas. Dizia assim: “Cecilia/ Hoje pensei em você./ P.S. – O dia todo”.

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Ficamos, todos os envolvidos na exposição, fascinados. Cecilia não queria expô-lo. Estava, claro, no seu direito de guardar uma memória. Eu, por outro lado, pensava no gesto. Tão (ou mais) bonito quanto o que estava escrito. Ele, em San Juan, México; ela, no Rio. Entre os dois, uma breve pausa nos compromissos para escrever palavras de saudade, de cuidado, de amor. Um gesto de amor. Ou do amor: “O amor implica a regeneração permanente do amor nascente”, diz o Morin em Amor poesia sabedoria.

Volto às memórias imaginadas do Boal.[2] Volto à primeira vez que o nome de Cecilia aparece. É uma referência ao Arena: “O mesmo aconteceu com Arena conta Tiradentes, mesmos autores, música de Gil, Caetano, Theo de Barros e Sidney Miller, e Arena conta Bolívar, texto meu e música de Theo, com Lima Duarte, Zezé Motta, Isabel Ribeiro, Cecilia Thumin, Renato Consorte, Hélio Ary…” Sigo adiante e, de segunda, encontro o que procurava: “Durante o Inspetor, fui convidado a dirigir em Buenos Aires, Teatro IFT. Escolhi O melhor juiz: engraçado traduzir nosso texto para o estilo de Lope. Segunda peça, A mandrágora. Não aprendi nada de novo e pouco ensinei; de novo e importante, vim de Buenos Aires com Cecilia Thumin, como esposa, e Fabián Silbert, meu filho”.

Nenhum detalhe do encontro, mas destacada sua importância. A discrição dá ainda mais sentido às poucas linhas do bilhete, que, apesar disso, ou por isso, têm, talvez, tudo quanto se poderia dizer. São elas que, revisitadas por acaso, me levam hoje a escrever esse texto como um gesto de carinho por quem, tão incansável quanto o Boal, o faz sempre presente num país pouco afeito à preservação do seu patrimônio cultural. A persistência de Cecilia, seu empenho, como o de Julian, filho do casal, em, de certa forma, dar continuidade ao trabalho de Boal – que requer constante reflexão sobre a potência crítica e interventora do teatro político – é, por si só, um modo de mantê-lo vivo no Brasil e no mundo. O Boal e o seu pensamento.

É outubro, comemoremos setembro, 27. A Cecilia, com carinho.

[1] A exposição encerrou este mês no Museu do Aljube, em Lisboa.

[2] A autobiografia Hamlet e o filho do padeiro: memórias imaginadas.

Acontece até amanhã no Auditório Augusto Boal, na Faculdade UnB Planaltina (FUP), a II Mostra terra em cena e na tela com 17 filmes de dez estados do país, que se somarão a quatro apresentações teatrais na semana de comemoração dos 10 anos da Licenciatura em Educação do Campo da UnB.
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Em 1977 a peça “Torquemada”, escrita por Augusto Boal e que relatava sua experiência como preso político durante a Ditadura Militar no Brasil, foi encenada pelo diretor Gastón Iturra em Québec.
Acervo Instituto Algusto Boal
Cartaz de François Richard e disponível em nosso acervo:http://www.acervoaugustoboal.com.br/

Em 1972 Augusto Boal dirige na St Clemment´s Church em Nova York, a Feira Latino-americana de Opinião, produzida pelo TOLA (Theatre of Latin America) e baseada na Feira Paulista de Opinião criada pelo Teatro de Arena em 1968.
Jorge Díaz é exilado em depois do golpe militar de Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. O dramaturgo criou diversos textos que denunciavam a injustiça, violência e morte que aconteceram em seu país. Uma das obras que remetem a este cenário é Introducción al elefante y otras zoologías.

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Capa do disco com as músicas do espetáculo gravado em 1968


Na Feira Latino-americana de Opinião, foi apresentada “Apuntes sobre la tortura y otras formas de diálogo”, trecho da peça Introducción al elefante y otra zoologías“.
 
 

A peça Torquemeda, escrita por Augusto Boal durante a prisão durante da Ditadura Militar brasileira, foi encenada no Centro Libre de Experimentación Teatral y Artística de la Universidad Nacional Autónoma de México (CLETA – UNAM) em 1973.

O grupo de teatro venezuelano Rajatabla e seu diretor Carlos Giménez chegou ao México em 1972. Enquanto iniciava a montagem de Torquemada, Carlos Giménez foi deportado, violentamente retirado de sua hospedagem no México e colocado em um avião de retorno a Buenos Aires.

 

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Capa do Programa da peça encenada no México em 1973. Acesse em: http://www.acervoaugustoboal.com.br/

O espetáculo teve sua estréia em maio de 1973 no Foro Isabelino e ficou dois meses em temporada, dedicando as apresentações ao diretor Carlos Giménez.

 Sobre a estreia de Torquemada, Gerardo de la Torre conta em seu livro “Torquemada: contra viento y marea”:

 

A poucos dias da estreia, todo mundo – moças e rapazes cansados, porém cheios de vitalidade – correm, se preocupam em pintar as paredes, colocar a iluminação, varrer os camarins, colocar os botões no figurino. Ensaiam a tarde, de noite e de madrugada, se criticam e se auto-criticam.