Augusto Boal

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por Rafael Villas Bôas

Professor da UnB, coordenador do Coletivo Terra em Cena e do grupo de pesquisa Modos de Produção e Antagonismos Sociais

De tudo que se possa dizer de Augusto Boal, talvez uma das inegáveis e menos polêmicas afirmações seja a de que ele foi um homem disposto a correr riscos e a aprender com as derrotas. Imbuído do espírito dialético que cabe a um homem de esquerda e da disciplina metodológica que talvez tenha aprendido da Química, sua primeira profissão, Boal soube dar respostas críticas às derrotas que o lado que optou por lutar sofreu ao longo de seu tempo histórico.
A formulação do Teatro do Oprimido pode ser entendida como uma resposta às rupturas e traumas que a ditatura civil-militar impôs ao Brasil em 1964. Uma tentativa de ativar uma metodologia de formação revolucionária, cujo estopim é a experiência de exploração dos oprimidos, visando a construção do poder popular. Isso num contexto de vitória da contrarrevolução!
Boal manteve, portanto, seu trabalho em rota de radicalização permanente, mesmo quando o horizonte revolucionário tinha se fechado e a realidade empurrava seus colegas de ofício para a indústria cultural. A maioria foi trabalhar na Globo.
Luta política e artística se faz de opções. Sempre. Esse é o legado de Boal, de Cecília Thumin Boal, de Julian Boal, e daqueles que se dispõem a farejar os rumos políticos de uma ação contra-hegemônica no presente.
O Teatro do Oprimido, hoje em dia, tem muitos desafios se quiser seguir os rumos abertos por quem o construiu. Ele pode procurar sempre pelos sujeitos coletivos que organizam movimentos e processos de contestaçao da ordem, e se tornar um elemento importante para a estratégia dessas organizações, como ocorreu com o MST ao se apropriar da metodologia do Teatro do Oprimido e multiplicá-la amplamente por acampamentos e assentamentos em todo o território nacional. Ou, ele pode se adequar às necessidades de sobrevivência daqueles que optaram por trabalhar com o método. Não há problema nisso, é legitimo, mas há riscos, muitos, e precisamos ter total consciência deles, caso não queiramos descarrilhar o trem. Seguem alguns deles:

  • as necessidades de sobrevivência não podem transformar o Teatro do Oprimido em um negócio, em um pacote de serviços ofertado com promessas de resultados ao final do processo;
  • o processo de formação não pode ser reduzido e tratado como sinônimo de capacitação. Não se trata de um treinamento, de um aperfeiçoamento, se trata de um trabalho em que o indivíduo faz parte do sujeito coletivo e se coloca como mediador dessa relação. Mas, isso não existe de antemão: é preciso que ambas as partes compartilhem do sentido de construção de um projeto comum, em disputa com o projeto hegemônico, de sociedade, de país. Sem isso, muito da proposta se perde;
  • a perspectiva emancipatória não pode ser conquistada de forma individual, logo, Teatro do Oprimido não é uma promessa de melhoria da vida pessoal, de libertação individual dos grilhões que o sistema nos impõe.

Quando perdemos essas questões de vista, o Teatro do Oprimido passa a se apresentar como um conjunto de métodos, agrupados por jogos e exercícios, em categorias, como outras tantas correntes metodológicas do teatro. E a dinâmica do Teatro Fórum passa a ser uma espécie de jogo de ganha e perde, e não um exercício dialético de estudo das contradições da realidade, por um público interessado em estuda-la para intervir nela, lutar e transformar as condições objetivas do real.
Sou professor de teatro e vivencio a cada turma de professores do campo, formada com habilitação em Linguagens, a experiência de perceber duas formas de entendimento sobre o trabalho teatral. Aqueles que compreendem as ligações orgânicas entre formação estética e política e organização social vão se empenhar diretamente na construção de experiências contra-hegemônicas de construção do poder popular, por dentro e por fora da sala de aula, se esforçando por retomar aquele sentido primeiro que Boal quis conferir ao Teatro do Oprimido.
Por outro lado, os que se apropriam da linguagem como, exclusivamente, um método teatral, poderão sem dúvida se tornar competentes professores e oficineiros da técnica, entretanto, o que ocorre com frequência é que a técnica pela técnica se torna um repertório sem alma, sem horizonte, logo, os riscos de mercantilização ou infantilização de uma proposta complexa se tornam muito grandes. No limite, sem preocupação com a estratégia política à qual o teatro político se vincula, voltada sempre para o fortalecimento do poder popular em perspectiva socialista, o Teatro do Oprimido pode e tem se tornado muita coisa dentro do que é possível quando empacotamos o teatro como um negócio: um método de auto-ajuda, uma oportunidade de capacitação profissional, uma diversificação do repertório de dinâmicas de profissionais que procuram ser interativos, um momento interessante na vida das pessoas, que permite interações, no momento da oficina ou curso, mas que não tem saldo organizativo posterior, etc.
Em época como a em que vivemos, em que a Indústria Cultural se antecipa ao rotular os fenômenos sociais com potencial contra-hegemônico, buscando sempre uma forma de administrar de forma mercantil as contradições sociais decorrentes que um sistema econômico e político que sobrevive da superexploraçao da força de trabalho e da degradação em larga escala da natureza, convém rememorarmos os pioneiros do teatro político, como Erwin Piscator, que dizia que “a missão do teatro revolucionário consiste em tomar como ponto de partida a realidade, e elevar a discrepância social a elemento de acusação, da subversão da nova ordem”.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=8MRgmRPLS3s&w=560&h=315]

2, jueves 19 de febrero de 2015

EN ESTE NÚMERO…

Teatreando por Latinoamérica

  • Una promesa cumplida por el talentoAmado René del Pino Estenoz
  • Moszi vs. Picasso: bifurcaciones del GuernicaIngry González
  • Algunas claves para la comprensión de mi sistema. Aimelys Díaz

A dos voces

  • Piedad Bonet, dramaturga: “no soy una impostora”. Vivian Martínez Tabares

(mais…)

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=oYrlH4wIGUE&w=560&h=315]

Em cartaz no CBBB até o dia 15 de fevereiro e no contexto das atividades relacionadas ao evento Augusto Boal
Na foto o ator Kiko do Valle como o anjo-pedro

 

 

foto ccbb hall-6

“Livro-catálogo que procura dividir o trabalho artístico
e político de Augusto Boal em fases para que algo de seu
movimento – interno e externo – possa ser visualizado. Seguimos
aqui a sugestão desse artista-químico, que gostava de separar os
elementos, sabendo ser essa intervenção uma suspensão sempre
algo abstrata que visa à realização do concreto. Que o registro
– feito de testemunhos e fragmentos colhidos por gente animada
com o conhecimento das coisas transmitido por Boal – dê também
algum testemunho da sua impressionante alegria. Só alguém que
conheceu de perto a ‘nefasta e mortal Melancolia’ seria capaz de
uma obra tão avessa à resignação e ao conformismo, voltada para
a colaboração com o outro da história.” Sérgio de Carvalho.

Este belo texto de Sergio de Carvalho inaugura o catálogo da exposição
A química é quase perfeita
Quase, como o ideal, para que sempre fique algo mais a ser feito

boal_convite_eletronicoA partir do dia 13 o Instituto Augusto Boal em parceria com o Centro Cultural Banco do Brasil apresenta um grande evento sobre a obra e a vida do dramaturgo
Esperamos vocês lá!

Publicamos um novo texto de Allan Jorge

 ” A celebração da morte”

Era uma vez uma menina chamada BIA HIV soro positivo infectada pelo seu namorado professor de DRAMATURGIA, já em estado terminal ela abandonou a medicação num plano diabólico de morrer em frente das câmeras de TV e mandar uma mensagem para a humanidade de todo o planeta

Foi feita uma propaganda milionária da sua morte em todos os meios de comunicação do país, dia e noite, em todas as redes sociais

 Sua mãe CECÍLIA, a grande interessada no evento milionário, produtora e incentivadora do evento, convidou todas as celebridades mundiais, dos Estados Unidos, Barak Obama, de Africa do Sul, Nelson Mandela, do Brasil, a presidenta Dilma, do teatro brasileiro a dramaturga MARCIA ZANELATTO

 BIA, uma POETISA E ATRIZ fracassada e dependente de COCAÍNA, resolveu por fim ao seu sofrimento de uma maneira POÉTICA E TEATRAL, num ritual cinematográfico em frente as câmeras de TV , coloca encima de um Lp 500 gramas de cocaína pura e num delírio emocionante com uma energia surprendente e um canudo de Ouro, cheia toda a COCAÍNA e morre de overdose

 E é aplaudida pelo mundo inteiro…

( ENTRA CECILIA MAE DE BIA E MAQUIAVELICA)

CECÍLIA: Bom dia  minha filha, esse é o dia mais feliz da sua vida….está preparada?? os convidados já estão chegando…

 ( BIA MALHUMORADA COMO SEMPRE)

BIA: sim mãe, acordei muito disposta e morrendo de felicidade, mas do que se trata, é primeiro de abril…4 de julho, 11 de setembro ou tem algum palhaço morrendo…

 CECÍLIA: não filha, hoje é o dia mais especial da sua vida…o Barak Obama já chegou filha (MAQUIAVÉLICA) e foi recebido com tapete vermelho no aeroporto Tom Jobim (MUDANDO DE ATITUDE) filha eu não queria te contar mas o Mario Sergio não vem…ele alegou sensibilidade em ver uma pessoa morrendo pessoalmente…. mas vai assistir  o evento pela televisão!!

( BIA ESTRESSADA COMO SEMPRE )

 BIA: Como não vem…! vou começar a espinafrar…!! ele foi visto dando uma entrevista no primeiro congresso de DRAMATURGIA do Rio de Janeiro para todo o país , diz que é mentira…? você sempre defendendo o MARIO SERGIO que o MARIO SERGIO é isso que o MARIO SERGIO é aquilo… na verdade é por causa do MARIO SERGIO que hoje estou fudida mas a hora dele vai chegar ( A MAE TENTANDO CONCILIAR)

CECÍLIA: Bia… ( GRITANDO) a Presidenta Dilma ligou avisou que não pode vir , tem aula de DRAMATURGIA com a professora MARCIA ZANELATTO

 BIA: (GRITANDO) quem é MARCIA ZANELATTO?

CECÍLIA : calma…filha! MARCIA ZANELATTO é uma DRAMATURGIA BRASILEIRA  famosa no mundo inteiro já se apresentou até na INGLATERRA, filha hoje ele tem que dar aula…

BIA: ele quem?..ele ou ela?.. ( GRITANDO)

 CECILIA : ele filha …! o MARIO SERGIO , é …para uma turminha de iniciantes de DRAMATURGIA na Biblioteca Parque…uma espelunca furreca do centro da cidade

( BIA REVOLTADA)

 BIA: mãe desta vida não se leva nada viemos do pó e ao pó voltaremos, mas o mundo inteiro hoje vai saber a verdade…quem é MARIO SERGIO MEDEIROS…será que no último momento da vida não pode estar presente…?? quer esconder o que…? um homem que sempre viveu na noite carioca no meio artístico…

CECÍLIA: Bia liga pra ele…! você sabe que o MARIO SERGIO é um cara do bem é amigo do GLAUCO , do LUTHER, aconteceu…! fazer o quê..?

 BIA PEGA O CELULAR E LIGA PARA O MARIO TELEFONE TOCA E NINGUEM ATENDE BIA GRITA REVOLTADA

BIA: fdp não atende o telefone…!! este homem me dá trabalho até na hora da morte,mãe estou decidida sem a  presença do MARIO SERGIO eu não me mato…!

CECILIA PENSANDO NO DINHEIRO DO EVENTO

CECÍLIA: (GRITANDO) na na ni na não você vai ter  que se matar sim, afinal de contas temos um contrato milionário que envolve interesses do mundo inteiro para você se matar na frente das câmeras….você está maluca?… Bia…? ( GRITANDO BIA ENTRA EM DEPRESSÃO SENTE O PESO DA RESPONSABILIDADE E O MEDO DA MORTE)

BIA: mãe….mãe por favor me ajude, estou com medo, a morte me apavora, preciso ser forte (QUASE NUM LAMENTO MELANCÓLICO) já que não posso voltar atrás prefiro morrer com dignidade, tenho que desapegar preciso entregar a minha alma pedir perdão por todos os meus pecados é uma ida sem volta não sei para onde eu vou, não posso decepcionar em primeiro lugar a minha mãe e as pessoas , vamos Bia seja forte, a morte é apenas um chicote da vida, desapega, despega Bia…tudo na vida são bens materiais você não tem do que se arrepender você foi uma garota legal. Amou viveu sorriu sofreu tudo dentro do eu, Bia não seja dramática vamos… a vida é uma comedia…  e o  SHOW não pode parar… ( PARA PENSA E RESPONDE ) …ESTOU PRONTA!!!…

 CENARIO TODO PRONTO PARA O DESENLACE FINAL

CECÍLIA: senhoras e senhores respeitável público que acompanharam pelas redes de Tv e pelas redes sociais esse DRAMA entre a vida e a morte, aqui termina o grande espetáculo da vida, luz…câmera.. .AÇÃO

Aula do dia 13
é interessante porque Boal aqui fala muito sobre o trabalho dos atores
algo que intriga lendo as aulas é que algumas são longas e outras muito curtinhas
porque seria isso? o escrividor cansou de escrever? gostaria muito de saber quem é que se deu ao trabalho (magnífico trabalho!!) de transcrever  essas aulas
E como será que fez? lembrava do que foi dito? tinha um gravador?
as vezes algumas frases resultam incongruentes, o escrividor deve ter escutado mal ou perdido alguma palabvra
Em todo caso a linguagem é sempre a de alguem que fala, que está falando
Tal vez Lauro Cesar Muniz ou Chico de Assis , frequentadores desse seminário, possam responder as nossas perguntas
dramaturgia 4ta aula 13:03:1966