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Semana de Luta Antimanicomial no Brasil – o trabalho de Boal na Saúde Mental

15.05.2019

                                                                                              por Fabiana Comparato

 

Dia 18 de Maio marca o dia da Luta Antimanicomial no Brasil. O Instituto Augusto Boal apoia esse movimento e se junta a essa luta de extrema importância, não só para as políticas de saúde mental do país, mas para todos que prezam e lutam por uma sociedade verdadeiramente democrática, tolerante e menos desigual para todos.

Mais de 30 anos depois do manifesto inicial dos trabalhadores da saúde mental, em 1987, que inaugurou um novo momento da Reforma Psiquiátrica no Brasil, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial ainda se faz essencial e necessário. É tempo de reafirmar essa luta que também dialoga e se mistura com a própria história e prática politico-teatral de liberdade de Boal. E que encontrou na metodologia do Teatro do Oprimido importante aliada capaz de contribuir com leveza e sensibilidade para as práticas de cuidado.

A atuação do Centro de Teatro do Oprimido na saúde mental teve início ainda em 1994 no Rio de Janeiro, sob a tutela de Boal. Primeiro na Casa das Palmeiras, da Dra. Nise da Silveira e no Hospital Psiquiátrico Dom Pedro II, com o grupo “As Princesas de Dom Pedro”, e em seguida no Hospital Psiquiátrico Jurujuba, com o grupo “Pirei na Cenna”. Desde então, mesmo após sua morte (em 2009), a pesquisa de Boal continuou a se alastrar como um instrumento terapêutico poderoso para a saúde mental.

Como Pedro Gabriel Delgado, que foi coordenador Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde de 2000 a 2010, pontuou no seu texto para a publicação “Metaxis – Teatro do Oprimido na Saúde Mental” (do Centro do Teatro de Oprimido) de 2011: “Seguindo a estrela de Augusto Boal, o CTO se coloca como instrumento para a construção de possibilidades de cuidado e de vida para outras pessoas. Os CAPS e a Reforma Psiquiátrica Brasileira agradecem.”

Mas a pesquisa de Boal dentro do Teatro do Oprimido chega ao âmbito da saúde mental ainda muito antes do início efetivo dos trabalhos do CTO no Rio de Janeiro nos anos 90 e do próprio marco inicial do Movimento Nacional Antimanicomial no final dos anos 80.

Em seu livro “Arco-Iris do Desejo” (que ganhou sua primeira edição no Brasil em 1990), o teatrólogo conta um pouco da genesis desse trabalho, que como ele mesmo coloca, fez parte de uma nova etapa de uma longa pesquisa que ainda era o Teatro do Oprimido, “mas um novo Teatro do Oprimido.”

Boal relata um de seus próprios marcos iniciais nessa trajetória junto com Cecilia Thumin, sua companheira e colaboradora. Em 1979, logo após chegarem a França, onde viveriam ainda 8 anos exilados da ditadura militar brasileira, os dois, a convite do médico Roger Gentis, dirigem uma oficina do Teatro do Oprimido no hospital psiquiátrico de Fleury-les-Aubris. A oficina, de dois meses de duração, que à princípio poderia incluir os estagiários, enfermeiros, médicos e pessoal da administração dispostos a participarem, acabou ganhando um outro novo corpo inesperado.

Boal e Cecilia criaram uma cena, no modelo de Teatro-Fórum, baseada em um episódio conflituoso vivenciado por um dos enfermeiros da instituição. A ideia, utilizando esse método, era promover um debate a cerca das questões éticas e comportamentais entre funcionários, médicos e pacientes suscitadas a partir da cena teatral apresentada. Mas foi quando o próprio enfermeiro protagonista do episódio pediu para que a cena fosse aberta ao público geral do hospital, que uma nova possibilidade se apresentou. Como conta Boal neste trecho do livro:

“devíamos anunciá-lo [o espetáculo] ao conjunto do complexo hospitalar, formado de aproximadamente dez pavilhões, um restaurante, a administração etc., e convidar todo o pessoal: os médicos e, sobretudo, os enfermeiros. Claude [o enfermeiro cujo relato foi utilizado na cena] queria saber como os outros teriam se comportado em seu lugar. O anúncio foi feito e o previsível – que nenhum de nós havia antevisto – aconteceu: os doentes tomaram conhecimento do espetáculo e quiseram vê-lo.

Pânico! (…) Seria correto autorizá-los a assistir às discussões, aos debates, à troca de idéias das quais eles eram “objeto”?

Os “sim” foram majoritários. O Teatro do Oprimido sendo uma forma democrática de teatro (exatamente como ali se praticava!), não podíamos impedir a entrada dos doentes. Eles vieram, entusiasmados… e numerosos: representavam pelo menos oitenta por cento do público.

Para ser franco, tive medo. Era a primeira vez que me deparava com um público como aquele. O que dizer? Difícil de explicar. Não nos esqueçamos de que não sou um terapeuta; sou um homem de teatro. (…) Durante meus trinta e cinco anos de teatro profissional havia conhecido mil maneiras diferentes de vivenciar a relação animador-público. Mas nesse caso, tudo era novo para mim.

Cecilia sugeriu que eu procedesse exatamente como o faria numa situação normal. Decidi então não modificar nada, agir como sempre o faço em qualquer Teatro-Fórum. E foi isso que fiz. Expliquei as regras do jogo. Resolvi propor alguns exercícios, os mesmos que me pareciam ser mais eficazes para qualquer outro público. E observei que os doentes os realizavam melhor que os enfermeiros.

(…)

Foi algo bonito de se ver. Pela primeira vez, doentes assistiam a debates dos quais eles mesmos eram o objeto; pela primeira vez, assistiam a discussões entre médicos e enfermeiros, enxergavam a vida “do outro lado”, descobriam o que se pensava a seu respeito, coisa que era, em geral, muito diferente daquilo que diretamente se lhes dizia. Era bonito. E era cada vez mais comovente.”

E agora, Cecilia Thumin Boal, que além de ter participado ativamente deste processo de descoberta, também se formou psicanalista, complementa a história. Finalizando esse texto-manifesto em apoio à Luta Antimanicomial no Brasil, ela nos cede uma breve entrevista, onde revela mais detalhes deste momento que Boal e ela exploraram juntos, e nos oferece algumas palavras sobre a contínua importância desta luta em nosso país.

 

Cecilia, poderia nos contar um pouco mais como surgiu a ideia de engajar as técnicas do TO no âmbito da saúde mental ainda na França? Como se deu esse contato com o Dr. Roger Gentis?

 

Emile Copfermann, que era o editor de Boal na França e que publicou o Teatro do Oprimido pela primeira vez em francês, também era amigo e publicava, na época, os trabalhos do médico psiquiatra Roger Gentis. A ideia de colocar os dois em contato foi de Emile. Ele organizou um jantar em sua casa e desse encontro Roger Gentis nos convidou para experimentar com uma oficina de teatro no hospital de Fleury-les-Aubry, que como Boal conta, acabou também por envolver os pacientes psiquiátricos. Roger Gentis questionava muito as práticas convencionais do sistema psiquiátrico. Ele era um militante de uma nova forma de psiquiatria não estigmatizante e acho que foi isso que fez com ele se interessasse pelo Teatro do Oprimido e nos convidasse para essa experiencia.

 

Na publicação “Metaxis” do CTO você conta de uma experiência sua com uma colega no hospital psiquiátrico de Eaubonne propondo oficinas de teatro, na mesma época em que você e Boal estavam em exílio na França. Pode nos contar um pouco como foi esse seu trabalho?

 

Nesta época eu estava cursando Psicologia na Universidade de Sorbonne e, como participava com Boal das oficinas do Teatro do Oprimido, queria utilizar teatro como uma ferramenta em meu estágio. Apresentei essa proposta para muitos hospitais e clínicas, mas o teatro provocava muito medo no meio psiquiátrico francês da época. O hospital de Eaubonne, mesmo receoso, foi o que aceitou. E para lá fomos, eu e uma colega de faculdade, que não fazia teatro, mas que também topou a proposta. Trabalhávamos duas vezes por semana, com cerca de vinte participantes, principalmente com improvisações. Nosso ateliê funcionava como se os participantes não fossem pacientes de um hospital, mas sim atores, enquanto eu me ausentava do papel de terapeuta e assumia o de diretora de teatro. No papel de diretora eu podia “dirigir” o grupo, com grande liberdade junto aos pacientes, criando “enquadramentos”, ou seja, regras e limites, que os próprios exercícios de improvisação teatral exigem, e que dentro desse jogo eram aceitas pelo grupo. O ateliê de Eaubonne me permitiu constatar que o teatro poderia ser utilizado, não como uma terapia em si, mas de fato como um elemento terapêutico.

 

Por fim, poderia nos falar um pouco sobre a importância da luta Antimanicomial.

 

Acredito que nesse momento de retrocessos que o país vive a grande preocupação é com a possibilidade dos pacientes voltarem a ser maltratados de forma institucionalizada e não terem seus direitos como cidadãos respeitados. Toda essa luta que vem sendo travada (do movimento antimanicomial) é exatamente no sentido de respeitar os direitos dos pacientes, daqueles que se veem na situação de ter que passar momentos de suas vidas internados em instituições, a não passarem por situações de violência e maltrato. É muito preocupante imaginar que reformas psiquiátricas importantes já alcançadas estejam correndo risco de retroceder.

 

Para informações a respeito dos eventos e atos que marcam a semana e o dia da Luta Antimanicomial 2019, por favor, ver links no Facebook do Instituto – https://www.facebook.com/instaugustoboal/ .

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